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invasão da Holanda
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| 2ª Guerra Mundial - 65 anos depois... |
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Rotterdam
O ultimato de rendição tinha sido aceito. A antiga e bela cidade estava a salvo. Porém os pilotos alemães de bombardeio procuravam em vão pelos foguetes de sinalização que os fizessem retornar. Foi dentro da massa compacta de construções da velha cidade que as bombas caíram. E o vento soprava forte... (Willhelmina Steenbeek)
Cidade
Destruída A Holanda viveu por detrás de uma cortina de neutralidade durante mais de um século. Nascida no período da Guerra dos Oitenta Anos, suportou impavidamente o conflito com uma série de inimigos durante a maior parte de sua história inicial. Foi bem sucedida em relação à Espanha Imperial, apesar das imensas adversidades, e acabou por conquistar a independência. Esta e mais as riquezas de novo império colonial que lhe vieram após, tiveram de ser valentemente defendidas em várias ocasiões contra muitos inimigos, às vezes novamente a Espanha, que se ligava a outros, depois a Inglaterra e, em seguida, a França. Os holandeses sempre resistiram, embora nem sempre fossem bem sucedidos, mas pelo menos conseguiram manter sua independência e o acesso ao mundo exterior, através do poderio marítimo. No entanto, mais de dois séculos de guerra tiveram como conseqüência a conquista da Holanda durante a Revolução Francesa, dando-se então a destruição do mito de que aquele país era indestrutível. A princípio estabeleceu-se uma independência fictícia como títere da França, para começar, como uma república - mais tarde monarquia regida pelo irmão de Napoleão - mas por fim esclareceu-se a verdadeira situação: em 1811 a Holanda foi integrada definitivamente ao Império Napoleônico. Quando este soçobrou e a Holanda foi libertada, os Países Baixos, ora ampliados com a adição da Bélgica e do Luxemburgo, abandonaram todas as aspirações de virem a ser grande potência e satisfizeram-se se portar como estado-tampão próspero entre uma Prússia que ressurgia e a França. Como a própria Bélgica, cuja secessão da União em 1830 não foi de todo benéfica, o pequenino estado holandês esperava consolidar sua posição internacional optando pela neutralidade. Enquanto as guerras de unificação alemã e italianas transtornavam o equilíbrio europeu pelo poder no século XIX, os países Baixos mantiveram-se alheios, burgueses, conservadores e, sobretudo, a salvo de intervenção estrangeira. Embora a Primeira Guerra Mundial mostrasse abertamente aos belgas que a neutralidade não era garantia alguma contra um invasor implacável, os holandeses tiveram a sorte de se livrar do conflito, sofrendo apenas certas privações quando o bloqueio britânico do continente tornou-se mais eficaz nos últimos 18 meses do conflito. Pouco se fez no tocante à defesa; tendo-se argumentado que ela era dispendiosa demais, e desnecessária. Pois a guerra não fora evitada sem custosas despesas? O destino da Bélgica, ocupada e arrasada durante quatro anos, não causou grande impacto sobre as atitudes dos holandeses, muito embora ele soubessem ver e ouvir a guerra, da segurança dos seus lares, se viviam nas proximidades da fronteira daquele país. No decorrer dos anos 20 a Alemanha foi dócil, militarmente fraca e destroçada pelo desemprego e pela inflação, e a Holanda, apenas pequenina parte do orçamento foi gasta com sua defesa. Quando Hitler subiu ao poder, embora o perigo para a segurança holandesa fosse evidente, não se gastou na defesa muito mais do que nos anos 20. Havia uma suposição não-escrita, quase não-falada, de que sobrevindo nova guerra, na Europa, a Holanda, de algum modo, ficaria alheia, protegida em sua neutralidade, como o fizera antes. Esta ilusão foi destruída a 10 de maio de 1940, quando levas de aviões despejaram bombas e pára-quedistas saltaram num estado de todo despreparado para a guerra, não só militar como também psicologicamente. Como aconteceu em outras democracias ocidentais, as vozes da razão que haviam pedido repetidamente rearmamento e aliança com seus aliados naturais, Inglaterra e França, foram ignoradas. A destruição de uma das suas maiores cidades, Rotterdam, foi um choque ainda maior que a própria invasão. Em cinco dias, a Holanda perdeu sua independência. Rotterdam, que os alemães bombardearam por engano, jazia em ruínas, juntamente com a política de neutralidade da Holanda. Guilhermina Steenbeek, que passou por esse holocausto da guerra e da ocupação, descreve como se deu a invasão da sua pátria despreparada e os horrores provocados pelo bombardeio da sua cidade natal. Nenhum holandês que passou pela Segunda Guerra poderá jamais esquecer a repentina violência da Blitzkrieg ou a destruição brutal e desnecessária de que foi vítima uma das suas maiores cidades. Das cinzas da guerra surgiram uma nova Rotterdam e uma nova Holanda, mas as lições da guerra foram aprendidas por preço muito alto. É pouco provável que o povo holandês retorne a uma neutralidade de avestruz, que não oferece como ficou provado defesa alguma contra um agressor predatório.
As bombas alemães destruíram uma grande cidade, mas nada pôde destruir o coração de seu povo. Rotterdam Redux continua viva. Seu grande coração espiritual reconstruiu Rotterdam dos escombros da guerra, um símbolo da Holanda e de uma Europa renascentes.
Paraíso
de Alienados Os turistas que visitam Rotterdam admiram ali a colossal escultura, de Zadkine, de um homem estendendo os braços para o céu. Os visitantes comuns a encaram apenas como peça de arte moderna- a figura de um homem com enorme buraco no corpo. Não percebem que esse buraco simboliza a condição da própria cidade de Rotterdam, uma cidade ainda bela no sentido moderno, e lutando para subir em busca do sucesso material, mas da qual arrancaram o coração. Durante o dia, a cidade é a própria imagem da vivacidade: os portos fervilhantes, o povo enérgico e trabalhador, a cacofonia do edifício da bolsa do milho, os compradores atarefados da Lijnbaan - o centro de compras famoso; tudo é estímulo para o visitante, mas à noite, vem a calma. O povo de Rotterdam trabalha na cidade, mas a maioria não mora nem se diverte ali; o magnífico teatro permanece quase vazio. Para os divertimentos a população muitas vezes vai a Breda, nas proximidades, ou mesmo a Antuérpia, na Bélgica, que na verdade não fica muito longe.
Contudo, antes de 1940 Rotterdam tinha vida noturna emocionante e era foco de cultura. O pitoresco centro com seus velhos monumentos, a grande biblioteca e os numerosos tesouros artísticos, atraíam pessoas que viviam a quilômetros e distância. Os cinemas e os teatros viviam cheios e a Schiedamse Dijk, conhecida de marinheiros de todo o mundo, fervilhava com música vinda de seus pequenos cafés e com as visões e os odores de uma cidade rica e vital. Mas aquela cidade, a Rotterdam onde nasci, não existe mais.
Em 1940, Rotterdam planejava festejar o sexto centenário de existência oficial, sendo reconhecidos seus foros de cidade em 1340. Daquela época em diante, ela progredira ininterruptamente, e graças à sua ótima localização, tornou-se importante centro comercial, onde muitos imigrantes alemães e britânicos se estabeleceram. Antuérpia, sua grande rival, superou-a, mas somente até 1847, quando se deu a inauguração do Nieuwe Waterweg, o canal que liga Rotterdam ao Mar do Norte. Dai em diante prosperou cada vez mais e seu povo confirmou a reputação de trabalhador, pondo à prova toda sua imaginação, energia e previsão. Mas a crescente prosperidade também atraiu mais gente do que a cidade podia abrigar com o mínimo de conforto, sobretudo no centro. Nesse ambiente de atmosfera e vitalidade maravilhosas, as famílias pobres, no entanto, estavam espremidas em casas pequenas demais, sem instalações sanitárias adequadas, e foi ali que, em maio de 1940, deu-se o bombardeio. Por um terrível engano cometido pela Luftwaffe, 80.000 pessoas em Rotterdam, aproximadamente 13% da população, ficaram desabrigadas. Mais de 2.500 lojas foram arrasadas. Cem destas, pequenas, vendiam água quente (Waterstokeijer). Tratava-se de uma característica dos bairros pobres em que as pessoas tinham de comprar água quente para lavar roupa e servir a outras necessidades rotineiras, pois não contavam com suprimento próprio do liquido. Cerca de 500 cafés foram destruídos, incluindo os da Schiedamse Dijk, e quase 70 escolas, juntamente com 21 igrejas, 12 cinemas, 20 grandes prédios de bancos, 4 hospitais e dois teatros. Tesouros artísticos insubstituíveis, especialmente os de propriedade particular, foram consumidos pelo fogo. O mundo inteiro perdeu sua grande biblioteca, a Leeskabinet, de Rotterdam, uma das maiores da Holanda. A Igreja de S. Lourenço, construída no século XV, também foi destruída, restando apenas a parte externa, embora a estrutura fosse restaurada depois da guerra, por preço altíssimo e financiado com fundos privados. A Igreja de Sta. Rosália, o incomparável rococó de Rotterdam, restaurada apenas alguns anos antes da Segunda Guerra, foi reduzida a escombros juntamente com a sinagoga construída em 1725 no Boompjes, outrora um cais orlado de belas árvores.
Os eventos que precederam esse desastre são importantes com relação à política da neutralidade comodista. O exemplo de Rotterdam permanecerá eternamente como lembrete deprimente das conseqüências de tamanha imprevidência.
Então, porque razão estava a Holanda tão mal preparada para enfrentar uma guerra obviamente inevitável? O treinamento de soldados pode-se dizer que não existia, as armas eram antiquadas (o exército holandês usava fuzis datando de 1890) e, para transporte, alguns batalhões contavam apenas com bicicletas. E tudo isso devido a um otimismo geral e descabido, provocado pela relutância em enfrentar a realidade, a de que a Alemanha honraria a neutralidade da Holanda. A ordem de mobilização geral, portanto, só foi dada a 29 de agosto de 1939.
Depois da anexação da Áustria e de parte da Checoslováquia, o principal objetivo de Hitler foi a invasão da Polônia. Deste acontecimento originou-se o conflito da Inglaterra e da França com a Alemanha, a 3 de setembro de 1939 - um passo inevitável, mas, ainda assim, corajoso, levando-se em conta o grandioso poderio militar do inimigo. A Alemanha mobilizara 105 divisões; 59 delas estavam lutando na Polônia, mas por trás da Muralha Ocidental, 43 divisões estavam prontas para atacar os países euro-ocidentais. A julgar pelas aparências, a França poderia facilmente contra-atacar com suas 84 divisões, que eram no entanto formadas sobretudo de soldados treinados para a defesa, não estando por isso em condições de desfechar ataques. A Inglaterra achava-se quase que na mesma situação, pois só recentemente começara a fortalecer o exército. Segundo o War Office em Londres, mais de 1.600 tanques se faziam necessários e só haviam 60 disponíveis. A Alemanha dispunha aproximadamente o mesmo número de aviões que a França e Inglaterra juntas, modernos e eficientes, ao passo que os aviões aliados eram, em sua maioria, desesperadamente antiquados e decadentes. Em poderio marítimo é que os Aliados mantinham certa superioridade.
A grande confiança que a Inglaterra e a França depositavam em suas marinhas foi a principal causa de se ter dado à Alemanha o tempo necessário para arquitetar a ofensiva e formar um exército e uma força aérea adequadamente armados e bem treinados. Tanto Chamberlain como Daladier haviam chegado à conclusão que, com a ajuda das colônias e dos Domínios Britânicos e - se necessário - dos americanos, a Alemanha seria facilmente bloqueada e subjugada. Eles não tinham pressa de entrar em guerra. E, de qualquer modo, ninguém podia acreditar, é obvio, que Hitler tentaria conquistar toda a Europa Ocidental. Os franceses, contribuindo para alimentar essas ilusões, mantinham uma fé inabalável na eficiência da Linha Maginot, que, diga-se de passagem, não ia além da Bélgica. Até meados de dezembro, o Primeiro Ministro da Inglaterra ainda não acreditava que os alemães pretendessem atacar o Ocidente; o General Montgomery advertiu que Hitler iniciaria a grande ofensiva na Europa Ocidental tão logo achasse conveniente. Na realidade, a ofensiva já fora adiada várias vezes devido apenas às más condições climáticas.
Foram os repetidos adiamentos de Hitler da data do ataque alemão que fizeram o governo holandês não acreditar nas advertências do major G.J. Sas, o Adido Militar holandês à embaixada em Berlim. Ele tinha um bom amigo ali, o Coronel Hans Oster, oficial de carreira alemão, e esses dois homens se conheciam muito bem há anos e confiavam um no outro. Oster estivera em serviço ativo durante a Primeira Guerra, era um realista e gostava muito da Holanda, onde o Imperador Alemão, Guilherme II, encontrara asilo em 1919. Ele disse a Sas que não acreditava no Nacional-Socialismo de Hitler; temia uma segunda guerra mundial, e combatera o movimento nazista desde a sua fundação. (Foi enforcado em Floosenburg, em abril de 1945, após a fracassada tentativa de matar Hitler a 20 de julho de 1944). Era bem informado, pois trabalhava na repartição para compilação de inteligência militar e, subseqüentemente, foi nomeado chefe do Zentralabteilung, cuja posição facilitava-lhe o contato com vários adidos militares em Berlim. Todas as informações que passou a Sas revelaram-se, mais tarde, corretas. Ele o advertiu, por exemplo, que os membros da Família Real deveriam cuidar da sua segurança; que as pontes sobre o Maas seriam destruídas mais cedo ou mais tarde; que os alemães usariam tropas aeroterrestres e tanques, e que alguns dos soldados alemães envergariam uniformes holandeses. Pelo final de janeiro de 1940, revelou que uma divisão completa de tanques invadiria Rotterdam por Noord-Brabant (uma província no sul da Holanda, limítrofe com a Bélgica), pelas pontes no Moerdjik e também em Dordrecht. Este último informe, talvez o mais importante, extraviou-se. O General Winkelman, sucessor do General Reynders como Comandante-Chefe do exército e da marinha, jamais o recebeu.
A 12 de setembro de 1939, Hitler comunicou aos seus generais que pretendia atacar o Ocidente tão logo se desse a rendição da Polônia. Muitos generais acharam o plano audacioso e alegaram que o exército não contava com os caminhões necessários para tal empresa e que a munição disponível só poderia suprir nada mais que um terço das divisões já prontas, na ocasião, para combate e, mesmo assim, num período de apenas duas semanas de ação. Hitler ignorou tais objeções. Mesmo que a Wehrmacht estivesse fraca, as condições dos franceses e dos britânicos eram bem piores. A 8 de outubro ele ditou uma mensagem a ser enviada ao General Keitel, chefe do Oberkommando der Wehrmacht, e aos comandantes-chefes do exército, marinha e força aérea: General von Brauchitsch, Almirante Raeder e o Generalfeldmarschall Goering, respectivamente. Cientificava-os da importância de derrotar a França e a Inglaterra o mais breve possível, e deixava claro sua avaliação desfavorável da URSS como aliada. O Vale do Ruhr, de valor capital para a indústria bélica alemã, tinha que ser salvaguardada, e se a Holanda e a Bélgica cedessem à persuasão da França e Inglaterra, abrindo mão da neutralidade, aquele vale estaria em perigo. Como o ataque é a melhor forma de defesa, urgia invadir os países neutros o mais rápido que pudessem. Seria uma boa vantagem também assegurar para a Alemanha as costas da Holanda e da Bélgica, e talvez a costa do Canal da Mancha, para bases aéreas, fazendo da Inglaterra um alvo mais fácil.
Hitler ainda examinou a possibilidade de ocupação da Bélgica pelos aliados, sendo essa, outra razão para as tropas alemães encetarem o ataque imediatamente. O Fuhrer e seus generais, portanto, planejaram uma enorme ofensiva, de codinome Fall Gelb (Caso Amarelo), cuja primeira versão já estava pronta a 19 de outubro. O teatro de operações seria principalmente a Bélgica, porque, em caso de ataque alemão, os exércitos franceses e britânicos poderiam penetrar naquele país pelo sul. De princípio, dava-se prioridade à tomada de Utrecht, Amsterdam e Rotterdam, mas o plano foi substituído, resolvendo-se pela concentração de tropas no sul. Apenas o 6° Exército alemão cruzaria o sul da Holanda a caminho de Bruxelas, caso em que a Vesting Holland (Fortaleza Holanda) permaneceria intata. O dia marcado para o Fall Gelb era 12 de novembro de 1939.
Os generais ainda não estavam muito entusiasmados. A maioria das divisões não se achava pronta para combate, faltando grande parte do material necessário; o treinamento e a organização precisavam ser aperfeiçoados. Brauchitsch ofereceu-se para aconselhar a Hitler que não era boa política atacar tão cedo, mas o Fuhrer, muito irritado, rejeitou as críticas de imediato e deu ordens pessoalmente que se iniciassem os preparativos para o Caso Amarelo. As tropas rumaram em direção das fronteiras da Holanda, Bélgica e Luxemburgo na noite de 5 de novembro. O exército que atravessaria o Luxemburgo tinha ordens de preparar seu flanco direito e repelir possíveis ataques holandeses, porque, embora se soubesse muito bem que aquelas tropas não representavam grande perigo, qualquer atraso, por menor que fosse, poderia ser fatal. Pois o que impediria os holandeses de destruir as pontes sobre o Maas (em francês, Meuse; em português, Mosa), e os belgas, as pontes sobre o canal Alberto? Hitler estava tremendamente preocupado com essa possibilidade e tentou garantir seus caminhos de avanço por meio de um plano complexo envolvendo a localização de soldados alemães, em uniformes holandeses e belgas, em pontos estratégicos. Mas onde encontrar estes uniformes? Era preciso grande número deles, não apenas de uniformes do exército mas também os de guardas alfandegários, policiais, ferroviários, etc. Os generais ignoravam que alguns uniformes holandeses na realidade foram confeccionados na Alemanha, e também que velhos uniformes eram-lhes vendidos como trapos. Assim, não se tentou comprar na Holanda as roupas necessárias. Certo oficial alemão, tendo como amigos alguns holandeses membros do NSB (National Socialistiche Bond ou União Nacional-Socialista), encarregou-se de adquirir os tais uniformes. Entretanto, um lojista judeu de Amsterdam, que negociava com roupas usadas, desconfiou, anotou o número da chapa do carro que levou os uniformes e chamou a policia. O veículo foi detido na fronteira, o dono preso e os uniformes, confiscados, destruindo-se, assim, totalmente, o plano. Mas o espantoso é que, pelo menos na aparência, ninguém tirou conclusões óbvias da circunstância de alemães querendo adquirir uniformes holandeses. A organização das Ferrovias Holandesas ordenou que todos os seu empregados portassem identidade depois do incidente, e não se fez mais que isto. O oficial alemão implicado, Gerken, escapou e não pôde ser interrogado. Posteriormente, a 12 de maio, ele retornou para libertar seus cúmplices holandeses, então presos em Almelo: obrigou o diretor da prisão a libertá-los e depois destruiu todos os documentos referentes à operação.
No sábado, 4 de novembro, o embaixador britânico em Haia, Sir Neville Bland, informou ao Ministro das Relações Exteriores holandês, van Kleffens, que os alemães atacariam a Holanda e a Bélgica a 12 de novembro. A Rainha Guilhermina foi informada, assim como o General Reynders. Este não achou necessário transmitir a mensagem a Sas em Berlim; não confiava muito no Adido Militar, considerando-o uma daquelas pessoas cansativas que adoram deixar os outros inquietos com estórias de desgraça iminente. Sas, contudo, já sabia que a Alemanha estava treinando tropas aeroterrestres e pára-quedistas e que soldados alemães envergando uniformes poloneses seriam usados no ataque à Polônia, ele bem o sabia, o Oeste seria o alvo seguinte. Seus avisos foram praticamente ignorados em Haia e a suspeita de que ele estava fazendo como na estória de Pedro e o Lobo aumentou, porque jamais mencionava o nome do seu principal informante, Oster, apenas sempre se referindo a ele como um oficial alemão.
O Gabinete Holandês, que na época não passava de um organismo decorativo formado em grande parte de gente meio senil e por isso mesmo pouco ativa, considerava Sas, que era muito sentimental, um personagem extravagante e, portanto, não-merecedor de confiança. Seus membros decidiram mandar o Tenente-Coronel Gijsberti Hodenpijl, ex-adido militar em Berlim durante a Primeira Guerra, à Alemanha para constatar a veracidade das alegações feitas por Sas. Hodenpijl visitou os seus velhos camaradas em Berlim e deles teve a garantia de nada saberem sobre um ataque iminente à Holanda. Assim, bastante satisfeito, enviou uma confortadora mensagem para a Haia: nada havia de errado. Aconteceu que um seu amigo estava no Departamento e ao saber da notícia ficou tão abalado, que chamou Sas para Haia imediatamente o que aborreceu muito o General Reynders. O general, Comandante-Chefe do Exército e da Marinha, lhe disse em poucas palavras que não queria que ele tivesse contato direto com Dijxhoorn (Ministro da Defesa) nem com van Kleffens (Ministro das Relações Exteriores) mas única e exclusivamente com ele, o General. Profundamente desiludido, Sas retornou a Berlim.
Contudo, apesar da descrença oficial em Sas, alguma sensação de perigo começava a se fazer sentir. Os generais holandeses decidiram reforçar a linha de defesa no Grebbe e fechar parcialmente as estradas da fronteira. O Ministro van Kleffens propôs que a Rainha juntamente com o Rei da Bélgica, fizessem um apelo à Alemanha, França e Inglaterra para pôr termo à guerra. A rainha achou a idéia excelente e na mesma noite escreveu uma carta a Mon cher Léopold contendo a proposta de enviar telegramas a Hitler, ao Rei Jorge VI e ao Presidente Lebrum. Infelizmente, Hitler recusou-se a cooperar. Não obstante, os holandeses continuaram otimistas; a 9 de novembro era possível ler nos jornais: Nosso governo não vê razões para alarme.
Ainda na véspera tinha-se dado uma tentativa de matar Hitler na Burgerbraukeller, em Munique (o bierputsch), e nessa ocasião o Ministro van Kleffens declarara no Parlamento: Os alemães poderiam surpreender-nos com uma invasão amanhã.
A 20 de janeiro de 1940, Churchill, numa transmissão radiofônica, censurou as pequenas potências que se mantinham neutras, afirmando que elas aguardavam trêmulas de medo, cada uma antevendo sua própria derrocada, só não sabendo qual seria a primeira, mas ansiando, todavia, para que a tempestade amainasse antes de chegar a sua vez. Se todas estivessem dispostas a cooperar, a catástrofe poderia ser evitada, disse ele. Na Holanda, suas palavras não surtiram o efeito que ele esperava. Segundo a opinião dos governantes dos países neutros, Inglaterra e França não tinham o direito de lhes impor sua vontade, mesmo porque, em passado bem recente, eles não haviam ajudado nenhuma das nações dominadas pela Alemanha e a Rússia. Bastava pensar no que acontecera com a Polônia, Checoslováquia e Finlândia. Esta última, a propósito, pedira ajuda da Liga das Nações e só o que conseguiu foi a expulsão da Rússia daquela organização, em nada beneficiando os finlandeses, que, não podendo contar com o auxílio solicitado, envolveram-se, durante três meses, num renhido combate, violento e heróico, resultando por fim na capitulação. O consenso geral na Holanda era que qualquer declaração que se fizesse em favor dos Aliados, apenas precipitaria, com essa atitude, a invasão do seu país pelos alemães, e era preciso evitar essa catástrofe a qualquer preço. Acreditava-se que somente uma completa neutralidade poderia salvar a Holanda, conforme acontecera na Primeira Guerra. O fato de que a história talvez não se repetisse neste aspecto, era uma hipótese que o povo holandês não podia aceitar, e nem desconfiava, ou se tinha alguma suspeita, preferia ignorá-la que seu país poderia ser atacado. Para isso, na verdade, Hitler só desejava um pretexto, uma desculpa. E o conseguiu, utilizando-se do Incidente de Venlo, que a imprensa holandesa praticamente ignorou e do qual os próprios holandeses, em sua maioria, continuaram ignorando.
Na Holanda, o Serviço Secreto Britânico operava, disfarçado, através da Agência de Controle de Passaportes, fundada em Haia durante a Primeira Guerra. À frente da operação, estava o Major R.H. Stevens, cuja tarefa principal era compilar todos os dados que se relacionassem com o exército alemão, e para isso contava com as informações recebidas através de holandeses que viajavam regularmente para a Alemanha. Seu intermediário era um homem chamado Vriten, cujas atividades, infelizmente, já eram conhecidas dos alemães, pois um dos seus parceiros, Friedrich Gunther, não passava de um traidor alemão que enviava informações à Abwehr em Hamburgo. Outro dos parceiros de Vrinten, Koutrik, também se voltou para a Abwehr em 1938. Koutrik conseguira desempenhar-se tão bem de suas funções, que, através dele, os alemães obtiveram os nomes e endereços de todos os agentes do Serviço Secreto Britânico. Na chefia do Serviço Secreto Holandês estava o Major-General van Oorschot que, embora, pelo menos superficialmente, tem boas relações com os adidos militares alemães, era, na verdade, anglófilo. Há muitos anos já vinha prevendo uma inevitável segunda guerra mundial.
Oficialmente, van Oorschot não mantinha qualquer contato com o Serviço Secreto Britânico - o Governo holandês não o teria aprovado - mas, a bem da verdade, havia estreita cooperação entre os vários serviços secretos existentes na Holanda, na Inglaterra e na França, e todas as informações colhidas sobre a Wehrmacht eram trocadas entre eles, sendo a ligação realizada por um repórter holandês. O Serviço de Inteligência Checo mais tarde entrou para essa associação, e um dos seus contatos, o alemão de nome Thummel, é que os advertiu da ofensiva contra a Polônia; ele foi preso em 1942 e por fim executado no campo de Theresienstadt, em abril de 1945.
Todas as informações recebidas pelo Serviço Secreto eram cuidadosamente examinadas e verificadas, na medida do possível, pois a contra-espionagem alemã tinha o hábito de espalhar informes falsos - o chamado Spielmaterial. Na verdade, todos faziam o mesmo e com sucesso extraordinário, tornando bem difícil distinguir a informação verdadeira da falsa. O mesmo se aplicava aos informantes; nunca se sabia ao certo quando eram leais. Muitos membros do Serviço Secreto Alemão na Holanda se faziam passar por fugitivos e, muitas vezes, só mesmo aos holandeses conseguiam iludir. Um desses era o Dr. Franz Fischer, que logrou entrar em contato com o Dr. Spiecker, em Londres, ex-chefe do serviço de imprensa do Reichskanzlei, agora aparentemente interessado em oficiais alemães desiludidos e insatisfeitos e, sob tal disfarce, recebeu de Fischer muitas informações falsas que foram transmitidas aos outros Serviços Secretos através do Serviço de Inteligência Britânico. O superior de Fischer era um tal Dr. Solms, e eles puderam fazer seu jogo durante 8 meses inteiros antes de despertar a desconfiança do Major Chidson, na época chefe da Agência de Controle de Passaportes, que rompeu todos os contatos com aqueles. Supõe-se, no entanto, que ele não tenha informado seu sucessor, o Major Stevens, nem o QG em Londres. Um lapso curioso.
A Agência de Controle de Passaportes ignorava que o Serviço de Inteligência Britânico tinha outro homem em Haia (ao passo que os alemães provavelmente conheciam a verdadeira função daquela Agência) e, assim, requisitou o Capitão S. Payne Best, casado com uma holandesa e residente em Haia havia alguns anos. Spiecker instruiu Fischer para que entrasse em contato com o capitão, a quem o QG em Londres mandou encontrar-se com o Dr. Solms, tendo Fischer como intermediário. Payne Best comunicou-se com Londres através de Stevens, da Agência de Controle de Passaportes, e juntou-se a Solms, em Venlo, na segunda quinzena de setembro de 1939, senão então, informado de uma trama para eliminar Hitler, Solms, entretanto, ainda não conhecia todos os detalhes, mas os líderes do complô em breve tentariam entrar em contato com Payne Best e dar-lhe mais informações. Depois daquele encontro, Solms achou melhor desaparecer; alegou que a Gestapo já estava desconfiando e, portanto, tinha de ficar oculto. Reinhard Heydrich, Chefe da Policia Secreta, decidira substituí-lo por dois oficiais da SS que, a bem da fraude, foram chamados de Leutnant Grosch e Hauptmann (Capitão) von Seidlitz. Entrementes, Payne Best informara o Serviço de Inteligência Holandês sobre seus contatos com a resistência alemã, e os holandeses, por sua vez, enviaram um certo Tenente Klop, cuja função seria ter os ouvidos alerta e transmitir tido ao General Reynders. Os ministros Dijxhoorn e van Kleffens foram mantidos na ignorância desse fato. O primeiro encontro realizou-se perto de Dinxperlo, na fronteira da Holanda com a Alemanha, a 21 de outubro, tendo-se Klop apresentado como Cooper, afirmando ser inglês - o que não lhe era difícil, pois vivera no Canadá e falava fluentemente o idioma daquele país. O grupo alemão alegou que não podia demorar muito, pois seu regresso teria que se dar antes das 8 horas; concordou-se que a primeira reunião seriam em Arnhem. Ali eles quase foram presos, por terem despertado as desconfianças de um garçom. Não se aproveitou grande coisa nesse encontro e os ingleses ficaram muito desapontados, mas alimentaram a esperança de conhecer membros mais importantes da oposição a Hitler na reunião seguinte. Esta se realizou a 30 de outubro, quando Best e Stevens puderam conhecer três membros do complô. Em lugar do Hauptmann von Seidlitz veio Walter Schellenberg, sob o pseudônimo de Hauptmann Schemmel, aluno promissor da SD Hauptamt, embora ainda jovem demais para o papel de General. O professor austríaco de Croms foi à Holanda usando o nome de Coronel Martini como o homem de confiança do líder da oposição. Ele e o Leutnant Grosch foram presos perto de Arnhem, mas Klop conseguiu libertá-los. Em meio à conversa, falaram sobre as perdas alemães durante a campanha polonesa e salientaram ser de vital importância que a guerra terminasse imediatamente. Mas antes que pudessem agir, eles precisariam conhecer os termos de paz com os quais a França e a Inglaterra concordassem. Payne Best transmitiu a informação ao Lorde Halifax, Ministro das Relações Exteriores britânico, cuja reação à notícia foi muito fria; não obstante, ele achou conveniente continuar com os contatos.
A 7 de novembro reuniram-se pela terceira vez. Os alemães, não gostando de Venlo como ponto de reunião, sugeriram um café holandês, o Backus, situado a poucos metros da fronteira. Ali, Schemmel desculpou-se pela ausência do General, que lamentava muito não poder comparecer à reunião, mas que viria no dia seguinte e lhes entregaria pessoalmente os documentos de maior importância. No dia 8, o General mais uma vez não pôde comparecer, tendo Hitler convocado todos os generais para uma reunião a fim de discutir as propostas de paz da Rainha Guilhermina e do Rei Leopoldo; mas era certo o seu comparecimento no dia seguinte.
A 9 de novembro, Payne Best, Stevens e Klop foram a Venlo. Eles começaram a desconfiar da situação e foram armados. Klop disse aos dois que o QG fora informado de que era esperada a invasão da Holanda pelos alemães a qualquer momento e essa notícia perturbadora - embora não acreditassem realmente nela - os deixou inquietos. Ao chegar em Venlo, Klop foi ao Koninklijke Marechaussée (Policia Real Holandesa) para pedir o envio de uma patrulha ao Café Backus como medida de segurança e enquanto eles se dirigiam para lá de carro, dois Marechaussées os seguiram de bicicleta. No posto da fronteira, Klop saiu do carro para informar o guarda alfandegário de que iam ao Backus, enquanto outros estacionavam o veículo perto do café. Nem bem o fizeram, um carro militar dobrou uma esquina, com alemães pendurados de ambos os lados e disparando revólveres à maneira dos gangsters de Chicago. Best e Stevens nem sequer tiveram tempo de sacar suas armas. Klop fez menção de atirar, mas uma bala acertou-lhe na cabeça (morreu a caminho do Hospital de Dusseldorf). Stevens e Best, e seu motorista, Lemmens, foram algemados e conduzidos ao QG da Gestapo. Quando os dois policiais de bicicleta chegaram ao Café Backus, tudo já terminara.
O governo holandês não gostou do resultado do exercício e o General van Oorschot, chefe do Serviço Secreto Holandês, foi obrigado a demitir-se.
Foi inútil Payne Best e Stevens fingirem inocência; Schemmel estava bem informado e revelou sua verdadeira identidade - Oficial da SS Schellenberg. Ele os mandou para Berlim a fim de serem interrogados por um especialista em Serviço Secreto de Inteligência britânico. Payne Best recusou-se a falar, mas Stevens, que levava consigo uma relação de nomes, foi mais acessível, e Lemmens, o motorista, confirmou tudo. Lemmens foi libertado em novembro de 1940, mas Payne Best e Stevens tiveram que passar o resto da guerra no campo de concentração de Dachau onde, felizmente, Stevens foi muito bem tratado, tendo até permissão de ir ao teatro em Munique, acompanhado de um guarda.
O Serviço de Inteligência alemão tinha agora mais razão para desconfiar da existência de estreita cooperação entre os Serviços Secretos britânico e holandês, mas ainda não conseguira provas concretas. Era evidente que, da sua parte, o governo holandês ignorava até que ponto iam as relações entre os vários Serviços de Inteligência e até mesmo se empenhou numa investigação minuciosa. Os alemães não reagiram, porque, naturalmente, não podiam dar-se ao luxo de permitir a investigação do caso.
A assinatura de Klop, em seus papéis, na verdade foi a mais valiosa arma encontrada pelos alemães. Forjada com perícia, ela autenticou uma história fantástica da perfídia holandesa que serviu de desculpa para a invasão da Holanda.
Entrementes, a data para o Fall Gelb fora marcada para 12 de novembro e Sas, avisado por Oster, dirigiu-se imediatamente para Haia. Devido ao mau tempo, no entanto, o Fall Gelb foi adiado para 15 de novembro, mas as notícias do adiamento chegaram tarde demais para Oster entrar em contato com Sas. Este também ignorava que o embaixador britânico, Sir Neville Bland, cientificara o governo holandês da invasão iminente. Em Haia, Sas teve uma recepção fria e, sendo um homem muito temperamental, enfureceu-se com a atitude dos ministros. Fora de si de tanta raiva, gritou que iria falar pessoalmente com a Rainha. O General Reynders, de cuja atitude para com Sas já falamos, encarregou-se de enviar uma mensagem ao ajudante da rainha, e Sas teve-lhe a porta fechada. No dia seguinte, o Ministro Dijxhoorn entrevistou Sas e o proibiu de pedir audiência à rainha, embora já então a raiva de Sas tivesse diminuído um pouco, em parte por ter descoberto que a informação que trouxera fora corroborada pelas advertências de Sir Neville Bland e de que pelo menos algumas providências estavam prestes a ser tomadas.
Todas as licenças do exército foram canceladas, uma providência que há muito tardava, mas somente a 11 de novembro é que o Banco Neerlandês foi avisado do perigo. Um diretor foi o mais depressa possível até Haia e soube de Sas que só havia uma chance mínima de que os alemães não invadiriam naquela mesma noite. Depois de ter conferenciado com Trip, Presidente do Banco Neerlandês, dois navios da Maatschappilj Zeeland foram fretados imediatamente e, durante a noite de 19-20 de novembro, foram carregados com ouro - 166 milhões de florins holandeses. (Não se tendo realizado o ataque, o ouro permaneceu ali, acondicionado em suas pequenas caixas de madeira).
O General Reynders ordenou que ficassem de prontidão as tropas na fronteira e da força aérea; mas, naturalmente, o Fall Gelb foi adiado uma vez mais, pois o mau tempo persistia; aliás, os adiamentos por este motivo - nada menos de 19 ao todo - prolongaram-se até 10 de maio de 1940.
O Primeiro-Ministro, de Geer, declarou através de uma transmissão radiofônica tranquilizadora: não havia razão para temores... não se deveria dar crédito às notícias publicadas na imprensa estrangeira, que não passavam de pernicioso sensacionalismo.
Hitler aproveitou-se da situação para fazer propaganda, segundo à qual os boatos de uma invasão alemã provinha apenas de intrigas vis da Inglaterra e da França no intuito de convencer os países neutros a tomar partido contra a Alemanha. A imprensa holandesa não poupou louvores ao Ministro Geer, declarando ser ele um dos poucos a se manter tranqüilo em meio aos exaltados elementos fomentadores de guerra.
Os líderes do exército holandês já não estavam confiando no governo, e para o público em geral um futuro em paz apresentava-se como uma perspectiva não muito remota.
Os esforços de Sas para fazê-los compreender suas advertências não estavam surtindo o efeito que desejava, sobretudo quando chegou ao conhecimento do General Reynders que todas as suas informações eram obtidas de um oficial da Abwher. O General não podia aceitar que tal coisa fosse verdade, parecia-lhe o maior dos absurdos, que um oficial alemão fosse tão indiferente aos conceitos de honra e dignidade a ponto de se tornar traidor. E, naturalmente, cada vez que Sas dava nova data de invasão e nada acontecia, aumentava a sua convicção de que Sas era um neurótico irritante. De inicio, a embaixada holandesa em Berlim tampouco acreditava na veracidade das informações de Sas, porém, mais tarde, seus membros mudaram de idéia devido a alguns informes provenientes de outras fontes. Gerbrandy, o embaixador holandês em Berlim, e a Rainha eram praticamente as únicas pessoas da mais alta categoria que não consideravam Sas um rematado idiota; Reynders chegou mesmo a dar ordens no sentido de evitar que as informações enviadas por Sas fossem transmitidas à Rainha, pois, acreditava ele, a tornariam nervosa, como também ao Ministro Dijxhoorn, porque ele começaria a interferir no exército e isso o General não poderia aceitar de maneira alguma. Entretanto, a Rainha recomendara um de seus acessores a Sas para que lhe enviasse diretamente copias dos seus relatórios, de cujas mãos elas as receberia. Mais tarde explicou ela confidencialmente que sabia compreender muito bem o quanto a certas pessoas podiam incomodar os modos um tanto exagerados de Sas, mas que, não obstante, os políticos deveriam ter tido a capacidade de lhe descontar as excentricidades características e reconhecer o que nele havia de autêntico.
As relações entre exército e governo melhoraram muito, quando, em fins de janeiro de 1940, Reynders foi substituído pelo general Winkelman, então com 63 anos de idade. Novas técnicas foram planejadas e este obteve todo o dinheiro que desejava para as providências que iria tomar.
No mês de novembro anterior, o General Reynders enviara memorandos, por insistência do Ministro van Kleffens, às embaixadas em Bruxelas, Paris e Londres, com a recomendação de serem lidas somente na eventualidade de a Alemanha invadir a Holanda. Em fins de março, o General Winkelman enviou outros memorandos nos quais pedia a ajuda dos franceses e da Real Força Aérea se a Alemanha atacasse a Holanda. Algumas unidades da marinha holandesa tinham envelopes lacrados a bordo, contendo mapas especiais, rotas de evacuação para a Inglaterra e o código de reconhecimento da Marinha Real britânica. Completaram-se os planos para se dar a transferência do ouro do banco Neerlandês, durante todo esse tempo ainda acondicionados em suas pequenas caixas a bordo dos dois navios fretados, que seriam escoltados pelo Mar do Norte por destróieres britânicos; e estabeleceu-se uma ligação radiofônica direta entre o Chefe de Estado-Maior da Marinha Holandesa em Haia e o Almirante em Londres. Estas precauções mais tarde mostraram-se de enorme valia nos preparativos para a evacuação da família real e do governo.
A 9 de abril de 1940, as forças alemães invadiram não só a Dinamarca mas também Oslo e todos os portos noruegueses até Narvik. Hitler garantira para a Alemanha o minério de ferro do norte da Suécia, exportado através de Narvik. O Coronel Oster informara Sas sobre o ataque iminente havia 6 dias; Sas transmitira a informação para o adido naval dinamarquês - cujo governo não acreditou nele - e ao chanceler norueguês - que por sua vez achou de bom alvitre não informar seu governo. A operação toda não custou à Kriegsmarine alemã mais que três cruzadores, 10 destróieres e um submarino.
A 19 de abril o governo holandês proclamou o estado de sítio no país. Isto significava que, entre outras coisas, os 30.000 membros do NSB (Movimento Nacional-Socialista holandês) tinham de ser mantidos sob constante vigilância e que a imprensa estava agora censurada. O número 30.000 referia-se unicamente aos membros registrados do NSB; além destes, havia muitos elementos apenas simpatizantes do Movimento. (Estes mais tarde procuraram evitar complicações; muitos deles, no entanto, se tornaram de grande atividade, negando, embora, qualquer ligação com o Movimento). Em 1935, a filiação ampliou-se. Durante aquela época de desemprego generalizado, membros do NSB candidataram-se às eleições no governo provincial com o lema Um Povo, e conseguiram quase 8% dos votos. O programa elaborado pelo NSB - a extinção dos demais partidos políticos, a eliminação do Parlamento, a proibição de greves e a instituição do trabalho forçado - serviu, naturalmente, para disfarçar um pouco as metas eleitorais, mas tornou-se bastante claro mais tarde e fez que muitos filiados o abandonassem nos anos que antecederam de perto a guerra. Aliás, em 1937, o número dos filiados existentes era menor que metade do que havia em 1935. Não obstante, muitos membros do NSB continuavam pagando suas anuidades devido a uma lealdade mal orientada, ou melhor, somente por obstinação (uma característica nacional),que ainda lhes ficaria muito mais dispendiosa mais tarde.
O Fall Gelb fora novamente reorganizada. Agora, tanto o sul como também os Países Baixos deveriam ser capturados e de uma só vez, para retirar o território holandês - segundo o plano - das garras da Inglaterra. A Holanda, ocupada, seria um ponto fraco no perímetro defensivo da Alemanha. Como o Dr. L. de Jong comenta em seu (O Reino dos Países Baixos durante a Segunda Guerra Mundial): As forças aliadas podiam penetrar diretamente da Holanda no território do Ruhr e paralisar a máquina de guerra da Alemanha. Isso tinha de ser impedido a todo custo.
A espionagem alemã fizera um trabalho realmente completo, daí resultando estar muito bem informada sobre todo o sistema defensivo e, em particular, sobre os pontos vulneráveis que forçosamente deveriam existir. À parte as informações dadas por espiões que trabalhavam na Holanda, o Serviço de Inteligência alemão ainda podia contar com um sem-número de fotografias atualizadas, tiradas a grande altitude, que revelavam concentrações de tropas e outros preparativos para defesa em meticulosos detalhes.
Rapidez e surpresa, o lema da Blitzkrieg, eram fatores primordiais. O plano centralizava-se numa tomada rápida da sede do governo, Haia, e, se possível, a captura da Rainha. Tropas seriam desembarcadas em três aeródromos perto de Haia: Valkenburg, Ypenburg e Ockenburg, sendo que as outras bases e a força aérea já teriam sido eliminadas na noite anterior por bombardeios feitos do oeste. Os integrantes da força de ataque deferiam viajar de motocicletas até Haia a toda velocidade com a missão de realizar a captura do General Winkelman e de outros ministros do governo. Teriam também de ocupar as repartições militares, requisitar carros (eles tinham até uma relação de garagens) e prender todos os que trabalhassem, ou que apenas fossem suspeitos de trabalhar, para Serviços de Inteligência holandês, francês ou britânico. Sendo capturada a rainha, ela teria de dar a ordem de capitular, a fim de evitar derramamento desnecessário de sangue, muito embora, se recusasse, seria apenas mantida prisioneira em seu palácio em condições honrosas. Entrementes, a 9ª Divisão de tanques do 18° Exército estaria deslocando-se para Rotterdam através de Moerdijk e Dordrecht, quando as tropas aeroterrestres vindas de Haia já teriam assegurado as pontes de Moerdijk e Dordrecht e ocupado o aeródromo Waalhaven, perto de Rotterdam.
Este, em poucas palavras, era o plano. Como a Holanda se defenderia com suas reduzidas forças mal equipadas? O pedido do General Reynders, em 1937, para que se adquirissem 60 tanques, fora recusado pelo então Ministro da Guerra, que alegou serem eles ultrapassados; e agora, a Holanda não possuía um sequer.
O adido militar da embaixada holandesa em Londres foi informado de que os tanques de Hitler passariam por Brabant, e quando a notícia foi recebida, decidiu-se adquirir mais 140 tanques, porém estes não haviam sido entregues até maio de 1940. As tropas do exército holandês deslocavam-se a pé e as comunicações eram primitivas, apesar da presença, na Holanda, da Philips, uma das mais importantes companhias mundiais fornecedoras de equipamento de telecomunicações. Três quintos das tropas eram infantaria, equipadas com velhos fuzis de modelo austríaco de 1890. As granadas de mão eram escassas e, de qualquer modo, muitos dos soldados não sabiam usá-las.
A relação dos pontos vulneráveis das forças holandesas poderia estender-se indefinidamente. Um deles referia-se a maior parte dos elementos convocados, cujo treinamento era muito restrito ou muito primitivo; o exército regular não despertava interesse algum e por isso o número de seus oficiais vinha diminuindo a cada dia que passava. Entre os oficiais da reserva não existiam elementos especializados.
Desde a época das guerras napoleônicas e a separação da Bélgica dos Países Baixos, nada de dramático acontecera e esta circunstância muito contribuiu para um estado de coisas revestido da maior imprevidência. Era difícil reconhecer que a Holanda talvez não pudesse manter-se neutra.
Havia, entretanto, alguém que percebia o perigo e demonstrava sua preocupação - a Rainha Guilhermina. Prevendo a possibilidade de ter de deixar o país, pensava na maneira como manter em segurança a filha, a Princesa Juliana, e a família, que poderiam encontrar abrigo nos arredores de Paris, junto aos parentes do Príncipe Bernhard. Somente van Kleffens, Ministro das Relações Exteriores, ficou a par dessas providências; ele meditara sobre o exemplo de Varsóvia e, temendo que Haia também pudesse ser bombardeada, tomou a iniciativa de transferir os vários ministérios para outros locais.
Nas paredes de alguns, viam-se os dizeres: os judeus emigraram; as companhias transferiram seu capital para a Inglaterra ou Estados Unidos; o Banco Neerlandês mandou para o exterior o grosso das suas reservas em ouro; a Philips transferiu todas as suas patentes e desenvolvimento industriais para a Inglaterra; e, significativamente, o embaixador alemão em Haia depositou sua grande fortuna pessoal na conta de uma migo em Nova York.
Finalmente, após um inverno que durante cem anos não fora mais rigoroso, veio a primavera. Hitler, que se vinha mantendo, impaciente, na maior expectativa, agora propunha o dia 5 de maio para o Fall Gelb. Acontece que o Ministro van Kleffens, bastante preocupado com a possibilidade de que talvez fosse tarde demais para o governo deixar o país na iminência de um ataque, decidiu enviar uma carta, datada de 3 de maio, ao embaixador holandês em Londres, contendo instruções no sentido de informar aos governadores de além-mar de: se a Holanda fosse obrigada a se render, eles continuassem agindo independentemente como parte do Reino Holandês. Isto era da maior importância para as Índias Orientais Holandesas, pois o Japão alimentava um interesse todo especial por aquela área.
No aeroporto de Schiphol, os aviões estavam abastecidos e prontos para decolar. As rodovias foram intencionalmente atravancadas de veículos estacionados com intervalos de cerca de 60 metros, dando passagem suficiente para tráfego normal e impedindo que fossem usadas, talvez, como pistas de pouso para aviões.
Mas o Fall Gelb foi adiado mais uma vez. O major Sas deu então, após inúmeras outras, sua última advertência: a Alemanha atacaria a 8 de maio. A Rainha Guilhermina e o Rei Leopoldo da Bélgica tentaram intervir a bem da paz:; Hitler, porém, estava irredutível. A 7 de maio todas as licenças foram mais uma vez canceladas.
A tão esperada ofensiva alemã, entretanto, não se realizou; os 200.000 soldados prontos para combate e os 50.000 efetivos estacionados nos quartéis do exército holandês relaxaram, e todo o país também. Mas, dessa vez, o tempo de espera foi curto; o ataque foi mesmo desfechado e precisamente às 03:55 horas de 10 de maio de 1940.
Trágico
dispertar Pode-se muito bem descrever o inesperado do ataque, através dos acontecimentos que se desenrolaram no aeródromo de Bergen, onde 23 caças, armados e já com os motores ligados, apenas aguardavam a ordem de decolar. Ouviu-se então o ronco dos aviões que sobrevoavam o local e a princípio julgou-se quer eram bombardeiros alemães a caminho da Inglaterra. Contudo, ao sobrevoar o Mar do Norte, mudaram de rumo e, vindo do oeste, passaram a bombardear o aeródromo. Bergen e os caças foram totalmente destruídos, antes mesmo que a verdadeira guerra começasse de fato.
Deve-se reconhecer que a invasão foi bem organizada. Centenas de aviões polvilharam os ares de pára-quedistas, com os pára-quedas brancos destacando-se nítidos contra o claro céu azul. Algumas nuvens brancas - o efeito da explosão de granadas antiaéreas - apareceram, mas foram poucas as baixas causadas entre os Junkers em seu vôo baixo. Vários caças holandeses deram combate aos aviões inimigos, mas não eram adversários à altura para enfrentar os Messerschmitts, que os sobrepujavam, e os aviões escoltados por eles seguiam seu caminho livremente.
O espantoso é que um aeródromo conseguiu permanecer intato. Aparentemente os alemães ignoravam a existência da base de Ruigenhoek e aproveitando-se disto, enquanto os outros aeródromos eram violentamente bombardeados, um piloto de caça holandês foi pousar ali, com seu avião meio destruido pelas balas, e encontrou todo o mundo dormindo. Ninguém naquele aeródromo sequer imaginara que a guerra começara.
O principal centro visado pela invasão foram os arredores de Haia, onde pelo menos metade da Luftlandekorps - tropas aeroterrestres - deveria saltar. Dos três aeródromos existentes na área, Ypenburg, Ockenburg e Valkenburg, este último, em fase de construção, não podia ser usado porque o solo ainda estava muito fofo, o que não impediu, entretanto, o desembarque de 75 transportes alemães, muito embora não pudessem decolar novamente para que fossem revezados por outros. Mais de 1.000 soldados alemães foram desembarcados ali, resultando da operação 21 baixas holandesas.
Ypenburg foi ocupado pela força aérea holandesa e estava sendo defendido por um batalhão de granadeiros. Os caças Fooker D-21 e Douglas, pertencentes à defesa holandesa, decolaram e conseguiram destruir 5 aviões inimigos, mas dentro de uma hora todos os aviões D-21 estavam fora de ação por falta de combustível ou munição ou haviam sido destruídos. Os Douglas saíram-se ainda pior: 8 logo foram derrubados e um deles caiu num tanque de armazenamento de óleo, perto de Vlaardingen, que estava em chamas.
Como era de esperar, o bombardeio causou grande pânico entre os soldados holandeses, e um comandante-de-companhia mais tarde informou ter sido obrigado a usar de grande energia e poder de persuasão para controlar a unidade - em sua maioria formada de cozinheiros, bagageiros, escreventes, etc, quase que totalmente desarmados. Este era o exército a que estava entregue a defesa da Holanda. Contudo, quando os primeiros transportes alemães pousaram, às 05:24 horas, os demais granadeiros lutaram com galhardia. Os oito aviões da primeira leva de Junkers ficaram crivados de balas, sendo que alguns deles incendiaram-se, e as duas levas seguintes também com oito aviões cada uma colidiram com os aparelhos já em terra com resultados dos mais desastrosos. A quarta leva evidentemente não encontrou condições de pousar e não teve outra alternativa senão voltar; alguns entretanto, ainda lograram pousar na praia. A defesa havia conseguido rechaçar o primeiro ataque a Ypenburg, mas logo depois o aeródromo caiu em poder dos pára-quedistas alemães.
No decorrer das primeiras horas de guerra, a força aérea alemã fora muito bem sucedida: a maioria da força aérea holandesa estava aniquilada, e podia-se considerar que essa parte da missão levada a termo pela Luftwaffe saíra bem de acordo com o que se planejara. Mas o ataque desfechado ao centro governamental se desintegrara, pois os transportes alemães não conseguiram pousar em nenhum dos três aeródromos dos arredores de Haia e, aliás, em Ypenburg e Ockenburg, as tropas alemães achavam-se bloqueadas. Assim, o ataque-relâmpago que seria empreendido por motociclistas contra Haia, visando capturar a Rainha e os ministros, não podia prosseguir.
As forças invasoras tiveram mais sucesso nas operações realizadas nas proximidades de Rotterdam, onde o aeroporto de Waalhaven, as pontes sobre o Maas em Rotterdam e as grandes pontes rodoviárias perto de Moerdijk e Dordrecht, foram ocupadas conforme planejado.
O Ministro van Kleffens recebeu uma mensagem informando que o embaixador alemão na Holanda, Conde Zech von Burkersroda, desejava vê-lo no Departamento. O Ministro teve certa dificuldade em entrar em Haia; soldados bloqueavam todos os acessos a qualquer elemento estranho, que poderia ser considerado um quinta-coluna. Van Kleffens, embora não fosse um estranho, teve a maior dificuldade em convencê-los de sua passagem, desde que se recusavam a acreditar que tinham à frente o próprio Ministro das Relações Exteriores - o que estaria fazendo um ministro no meio de todo aquele perigo, arriscando ser morto por aviões alemães prontos para atacar? Um telefonema ao Grande QG deu-lhe finalmente a permissão solicitada. O Conde von Burkersroda pretendia ler para van Kleffens os termos da mensagem cifrada recebida dos seus superiores, mas quando chegou o momento, foi abalado por tamanha emoção, que não pôde pronunciar uma só palavra. É que ele vivia há 12 anos na Holanda e ali fizera muitos amigos nesse período; sentiu-se tão comovido, que nada mais pôde fazer senão entregar a folha de papel a van Kleffens. O teor da mensagem referia-se às provas irrefutáveis que a Alemanha possuía de que a França e a Inglaterra pretendiam invadir a Holanda e a Bélgica visando a penetrar o vale do Ruhr. Portanto, resistir às forças alemães seria um tentativa inútil, diante dos poderosos exércitos da Alemanha, que os esmagaria instantaneamente. Contudo, a propriedade holandesa e a Família Real seriam protegidas contra eventuais abusos, se os holandeses depusessem as armas. Do contrário, o país poderia esperar o aniquilamento completo.
De acordo com os termos da Constituição Holandesa, a guerra não podia ser declarada sem a ratificação dos Staten-Generaal (Estados-Gerais), o equivalente às duas Casas do parlamento britânico. Naturalmente, a guerra estava progredindo naquele momento, de modo que qualquer declaração apenas confirmaria o estado de coisas existente. Todavia, van Kleffens não queria arriscar a possibilidade de críticos poderem dizer que os holandeses não haviam declarado guerra, por isso daria aos alemães material útil de propaganda; eles declarariam os soldados holandeses como franco-atiradores. Portanto, o Ministro tomou a decisão e registrou, por escrito, que o governo da Holanda considerava o país em guerra com a Alemanha. Ele entregou sua resposta ao conde e lhe perguntou se tinha algo a dizer. O Conde Zach mal pôde balbuciar algumas palavras de despedida e, ao partir, van Kleffens apertou-lhe a mão (escandalizando dois oficiais holandeses presentes). Von Burkersroda foi removido para internação no Hotel des Indes e van Kleffens partiu rápido para estar presente a uma conferência de última hora a ser realizada num grande abrigo subterrâneo no Bezuidenhout, quando então se decidiu que van Kleffens deveria seguir logo para Londres a fim de expor a situação e pedir ajuda. Não havia quase vento, algo muito raro na Holanda, e diante dessas condições atmosféricas favoráveis, ele propôs tomar um hidroavião que poderia levantar vôo de Scheveningen e levá-lo à outra margem do Mar do Norte. Welter, Ministro das Colônias, deveria acompanhá-lo e van Kleffens pediu, e foi-lhe concedida permissão para levar a esposa consigo, caso houvesse lugar para ela no avião.
Em Scheveningen, eles encontraram dois hidroaviões balançando suavemente no mar calmo, um deles, entretanto, estava com o tanque de gasolina avariado, e o outro, muito adernado, pois um dos flutuadores apresentava-se crivado de balas. O piloto deste último afirmou que se pudesse desenvolver bastante velocidade, a água escoaria do flutuador e seria possível decolar. Ele tiveram sorte e lograram escapar, debaixo de uma saraivada de balas. (Três dias depois o oficial que os acompanhara até a costa foi-lhes ao encontro em Londres e notificou que o outro hidroavião fora bombardeado depois que eles decolaram, resultando na morte de três jovens marinheiros).
Na excitação do momento, ninguém pensara em verificar se havia algum mapa no avião, de modo que o vôo foi realizado a olho. Depois de algum tempo eles viram uma grande cidade costeira a boreste e resolveram amerrissar - tratava-se da cidade de Brighton. Adernando perigosamente, eles taxiaram até o cais, com Sparks sentado na asa acenando seu lenço. Logo se reuniu uma multidão na praia, e entre as inúmeras pessoas que ali se encontravam havia muito policiais que os escoltaram até a delegacia de policia de Brighton, onde lhes serviram sanduíches - muito bem vindos, aliás, pois nada haviam comido desde a noite anterior. Como não tinham dinheiro britânico, a policia também lhes adquiriu as passagens de trem para Londres. Foram acompanhados na viagem pelo Prefeito de Brighton e, ao chegarem à capital, o embaixador holandês foi-lhes ao encontro na estação. Sem perda de tempo dirigiram-se para o Ministério das Relações Exteriores, onde tiveram uma prolongada conversa com o Lorde Halifax; a Holanda tendo sido atacada pela Alemanha, fora promovida da sua posição de neutra para a de aliada. Terminada a reunião, foram-se avistar com o Primeiro-Ministro do Almirantado, Winston Churchill, que acabara de ser informado, através do Palácio de Buckingham, que Chamberlain renunciara ao cargo e ele fora encarregado de formar o novo gabinete. Todos foram extremamentes amáveis, escreve van Kleffens em The Rape of the Netherlands.
Agora que dois dos representantes holandeses estavam em Londres, os invasores alemães não puderam calar a voz do governo legal da Holanda, fato que se mostrou de enorme importância e a BBC ofereceu a van Kleffens a oportunidade de testemunhar ao povo britânico estar ali para criar fortes laços com os governos das potências das quais agora se tornara aliado.
Nessa época havia quatro importantes armadores holandeses em Londres; eles decidiram formar o Comitê de Frota Mercante que seria reconhecido pelos governos britânico e holandês. O comitê assumiria o controle dos navios da frota mercante holandesa, que tinham podido ou talvez pudessem escapar aos alemães. Nesse momento havia cerca de 45 navios da Holanda em portos britânicos.
Welter e van Kleffens foram recebidos em audiência pelo Rei no dia seguinte à sua chegada e ficaram muito impressionados pela sua personalidade e pela simpatia e bondade que lhes dispensou. Entrementes, a Família Real holandesa reunira-se no Palácio Huis ten Bosch, nos arredores de Haia, onde havia um grande abrigo subterrâneo. De manhã cedo, um aparelho alemão fez um vôo rasante sobre o palácio e embora fosse derrubado, o incidente fez a rainha compreender que era tempo de tomar providências mais concretas visando à segurança da Princesa Herdeira e das suas duas filhas menores, resolvendo que elas deveriam deixar o país imediatamente. Mas os três aeródromos perto de Haia não tinham condições de ser usados, pois estavam juncados de transportes alemães abandonados, e a luta que se travava nas proximidades do aeródromo de Waalhaven impedia o uso deste. Além disso, os bosques em torno de Huis ten Bosh estavam repletos de soldados aeroterrestres alemães. O general Winkelman aconselhou a Família Real a ir temporariamente para o Palácio de Noordeinde, em Haia, onde estaria um pouco mais de segurança. Apelando para a maior discrição possível, os automóveis da Corte foram deixados ali e utilizaram-se de dois carros comuns, tendo à frente a Rainha Gulhermina seguida logo após pela Princesa Herdeira e sua família no segundo carro. Devido aos inúmeros boatos que falavam de uma quinta-coluna (segundo rumores, havia pessoas desconhecidas e misteriosas atirando de tocaia contra soldados holandeses), todos ficaram um tanto surpreendidos por verem que a viagem se desenrolara praticamente sem quaisquer incidentes, podendo chegar com facilidade ao Palácio de Noordeinde, de onde se providenciou, através de uma ligação radiofônica com o Almirantado britânico, para que a Princesa Juliana e suas filhas embarcassem pela madrugada nos navios que os britânicos estavam enviando para Ilmuiden, originalmente com o objetivo de transportar o ouro do Banco Neerlandês. Entretanto, a região entre Haia e Ijmuiden estava agora infestada de perigos devido à presença ali de tropas aeroterrestres alemães, e a partida precisou ser adiada.
Em Rotterdam, a batalha estava no auge e pelo amanhecer os alemães haviam já tomado as pontes sobre o Maas no centro da cidade; o aeródromo de Waalahaven também foi capturado e durante o dia quase 6.000 soldados alemães desembarcaram ali. Na verdade, os holandeses tinham cerca de 7.000 homens protegendo os depósitos e instalações portuárias, mas entre eles, apenas 1.000 estavam adequadamente treinados, e só podiam contar com 8 metralhadoras pesadas e 48 leves e antiquadas. Além disso, foram apanhados completamente de surpresa durante a noite de 9-10 de maio e mal compreendiam o que estava acontecendo. Segundo todas as probabilidades, a Alemanha atacaria a Holanda pela fronteira comum, e não pelo lado oposto do país, através da cidade portuária de Rotterdam, no Oeste. Foram vítimas, também, de toda sorte de boatos - por exemplo, de que os alemães estavam disfarçados de policiais holandeses e que membros da quinta-coluna estavam atirando contra soldados holandeses. Em suma, era uma situação terrivelmente caótica para eles, mas de grande vantagem para o Comandante-Chefe alemão, General Student.
As medidas de defesa que os holandeses puderam adotar estavam lamentavelmente muito aquém, levando-se em conta o poderio das forças que tentavam tomar a cidade. O Coronel Scharroo, comandante das unidades de Rotterdam, providenciara para que todas as estradas da cidade fossem protegidas por barricadas; a Z5, uma velha lancha-torpedeira, ancorada perto do Hook, zarpou para o Willemsbrug, juntamente com a TM 51, as únicas torpedeiras que a marinha possuía na Holanda, para atacar os alemães. Foram bombardeadas com persistência por aviões inimigos e embora, felizmente, todas as bombas errassem o alvo, os disparos da costa lhes causaram pesadas avarias. Providenciou-se para que fossem comboiadas pelo destróier Van Galen, que acabara de voltar das Índias Orientais Holandesas, e por duas canhoneiras de Den Helder; antes, porém, que o Van Galen pudesse chegar a Rotterdam, teve de travar combate com bombardeiros de mergulho alemães, derrubou três deles, mas acabou sendo afundado.
No entanto a ajuda já estava a caminho. O 7° Exército francês, sediado na fronteira franco-belga, recebera ordens expressas de avançar imediatamente para o norte, o que não era fácil, todavia, pela falta absoluta de disponibilidade de transporte para tal força. O deslocamento se fez por trem e por vários tipos de automóveis para esse fim requisitados, muito deficientes, segundo uma testemunha ocular que os viu passar na Bélgica: ônibus parisienses que já deveriam estar fora de uso, caminhões de mudança, caminhões outrora usados para levar legumes ao mercado Les Halles em Paris, e caminhões de entrega de grandes lojas. A artilharia francesa era puxada por pequenos e fogosos cavalos. Os infelizes soldados que não tinham transporte tiveram que viajar a pé. O comandante-chefe francês, General Gamelin, compreendia que a situação era precária e o tempo, escasso, e por isso ordenou que uma força avançada se dirigisse para Flushing, na Zelândia, num navio-transporte protegido por belonaves. O primeiro grupo chegou durante o dia, o grupo de exploração tendo à frente o Coronel de Beauchesne. Além disso, as tropas britânicas também desembarcaram na mesma ocasião.
A 10 de maio, de manhã bem cedo, Londres mandara grupos de demolição ficar de prontidão; um destacamento seguiria para Ijmuiden com o objetivo de destruir as comportas enquanto estivessem abertas. Felizmente, o comandante sediado em Ijmuiden pôde impedir essa missão; caso o plano fosse realizado, todo o oeste da Holanda teria sido inundado pelo mar - uma verdadeira catástrofe.
Ao destacamento despachado para Rotterdam coube a tarefa de incendiar os tanques de óleo de Pernis, situados próximo de Rotterdam. Contudo, o General Winkelman antecipadamente ordenara os preparativos para inutilizar os óleos, a simples mistura dos vários tipos de óleo resultaria o mesmo que a destruição pelo fogo - a curto prazo. Ele considerava prematuras as medidas drásticas como incêndio e destruição por explosões dos depósitos de óleo. Durante a noite de 10-11 de maio, o destacamento britânico ajudou no embarque das barras de ouro no valor de 22 milhões de florins do Banco Neerlandês. Ainda havia mais ouro, mas ao clarear o dia suspendeu-se o embarque porque o prédio do bando estava sendo atacado. O navio britânico, mal deixou o porto, foi afundado por uma mina magnética e o comandante morreu. Durante a ocupação, os alemães puderam recuperar quatro quintos do ouro no fundo do Nieuwe Waterweg; consideraram-no despojos de guerra e o transportaram para a Alemanha, sendo que o restante, ainda em Amsterdam, foi levado em segurança para a Inglaterra em dois cargueiros da KNSM e escoltados por cruzadores britânicos. Ouro no valor de mais de 887 milhões de florins puderam assim ser salvos da cobiça do III Reich.
Duas velhas barcas da Linha de Harwich - a Malines e a St. Denis - estavam atracadas em Rotterdam, prontas para retirar o pessoal do consulado britânico (inclusive os elementos que trabalhavam para o Serviço Secreto britânico) em caso de ataque alemão. Vrinten e seu colaborador Koutrik (agora um agente duplo trabalhando para a Abwher) faziam parte dos que fugiram para a Inglaterra, a bordo do Malines. Infelizmente, Koutrik sabia onde estavam os dossiês de Vrinten e outros registros, informação esta que logo transmitiu ele aos alemães. Muitos contatos foram presos e alguns chegaram mesmo a ser executados.
Entrementes, a Alemanha dominava os céus da Holanda. Os pilotos holandeses contra-atacavam com abnegada coragem e determinação, mas estavam em séria desvantagem no uso de suas máquinas antigas e lentas, e, assim, o primeiro dia da guerra veio surpreendê-los com a destruição de 20% dos seus aviões ineficientes. Os artilheiros antiaéreos, carecendo de experiência em disparo contra alvos móveis, adquiriram-na rapidamente, logo nas primeiras horas da manhã de 10 de maio; eles conseguiram derrubar cerca de 100 transportes, mas nesse breve período tiveram de despender metade de todo o estoque de munição antiaérea que possuíam. Incluindo aviões que não podiam mais decolar, como descrevemos antes, 200 transportes foram perdidos.
Apesar do fato desastroso dos alemães estarem dominando as pontes sobre o Maas em Rotterdam e as localizadas perto de Dordrecht e Moerdijk, ao QG militar holandês ainda restavam muitas esperanças de que seria possível encontrar um jeito de se unir às tropas francesas que então avançavam, e deter afinal o ataque alemão.
Na verdade, os generais alemães que sitiavam Rotterdam já estavam um tanto pessimistas. Eles reconheciam que os ataques aéreos nas proximidades de Haia haviam, quase todos, fracassado. Apenas 13 dos primeiros 55 aviões-transportes conseguiram retornar à base, e um destes ainda contendo toda a carga. Preocupado, o General Kesselring enviou um avião de reconhecimento à Haia que, ao retornar, trouxe a mensagem de que não se podia observar nada de especial. Ele chegou à conclusão de que o ataque fracassara e decidiu mandar recuar na direção de Delf (a meio caminho entre Haia e Rotterdam). Tentou enviar uma ordem de retirada para o grupo acampado perto de Valkenburg, mas não pôde conseguir ligação.
O General Student informara ao comandante alemão que tomara o Noordereiland, que era possível que a 9ª Divisão panzer não tivesse condições de chegar em seu auxílio antes de duas semanas. Mas o General von Bock, comandante do Heeresgruppe B daquela divisão, estava decidido a chegar a tempo. Ele tinha conhecimento de que muita coisa saíra errada no oeste da Holanda, mas a ponte Moerdijk havia sido tomada e isto era de vital importância, como escreveu ele em seu diário. Os mais importantes objetivos, as pontes perto de Gennep, Moerdijk, Dordrecht e Rotterdam, foram alcançados, e os alemães de forma alguma abririam mão deles.
O pânico reinava entre os holandeses, e não apenas a população civil foi afetada; o moral também sofrera colapso no setor militar e corriam muitos boatos infundados - um deles, por exemplo, que os alemães pretendiam usar gás. Havia também o temor todo especial de uma quinta-coluna (termo originário da Guerra Civil Espanhola) que causou muita suspeita exagerada e assaz prejudicial. Sacerdotes e monges, por qualquer motivo, tornavam-se as maiores vítimas de suspeição, e depois que ocorreu o boato de que soldados aeroterrestres alemães haviam desembarcado usando blusas azuis, calças marrons e tamancos holandeses, todo camponês teve de ser submetido a exame dos mais rigorosos.
Todos os alemães residentes na Holanda foram presos, incluindo grande número de judeus; não havia espaço bastante para abrigar convenientemente todos os prisioneiros, o que resultou numa espantosa promiscuidade. Centenas de pessoas foram aprisionadas no grande saguão do prédio da KLM. Ouviram-se alguns judeus comentar que estariam melhor nos campos de concentração alemães, onde, pelo menos, podiam lavar-se.
Nesse ínterim, os franceses haviam chegado ao sul do país e junto com um destacamento holandês, tentaram ambos retomar a ponte de Moerdijk, mas sob o impacto do bombardeio da Luftwaffe que os metralhou incessantemente, o ataque fracassou. Lapsos de comunicação e outras dificuldades deram origem à confusão em que os boatos conseguiram deturpar a verdade dos acontecimentos. Os franceses, não tendo sido informados da ordem de que as tropas no sul deviam recuar para a outra margem dos grandes rios na Vesting Holland achavam que estavam sendo abandonados pelo exército holandês.
O Coronel Schmidt, comandante da Peel-Division no sul da Holanda e encarregado da defesa da província Noord-Brabant, recebeu missão nada fácil. Durante a manhã de 11 de maio ele perdera contato com a maioria dos seus comandantes-de-batalhão, um dos quais, o major da reserva Dobken, já fora morto por uma metralhadora alemã que tentava destruir. Outros comandantes haviam mudado suas posições sem deixar qualquer notícia quanto ao seu paradeiro. A situação piorou ainda mais quando os franceses resolveram fazer exigências das mais contraditórias; o Tenente-Coronel Lestoqoui queria estacionar suas tropas ao sul de Breda, e outros comandantes franceses, ao norte. Infelizmente, o coronel ignorava o fato de que havia numerosos membros da Policia Real em Breda que poderiam ter sido aproveitados para dirigir as tropas já meio desorientadas. As mensagens telefônicas tendiam a ser intencionalmente ambíguas, porque todos receavam que pudessem ser ouvidas pelos quinta-colunas.
Lestoquoi decidiu ir pessoalmente a Roosendaal, para onde seu estado-maior se deslocara, a fim de obter a informação que necessitava, Decidiu-se por uma estrada paralela à rodovia principal - e teve a má sorte de encontrar os primeiros tanques da 9ª Divisão Panzer ; aprisionado e levado para Den Bosch (Bois-le-Duc), foi ali submetido a um minucioso interrogatório. Ao lhe perguntar sobre o paradeiro da divisão Ligeira do III Corpo de Exércitos, ele não soube responder, e mesmo que o quisesse, dele não tinha a menor idéia. Assim, o Comandante da Peel-Division foi eliminado, mas já então isso não fazia a menor diferença; as estradas estavam repletas de soldados em fuga, sem suas cozinhas de campanha ou provisões, sem assistência médica, desorganizados, a pé, de bicicleta ou em carros requisitados, continuamente metralhados e bombardeados por aviões alemães. Um trecho particularmente ruim era a estrada entre Tilburg e Breda que, embora juncada de corpos de soldados, de cavalos mortos e de veículos em chamas, e portanto virtualmente intransponível, continuou sendo atingido pelos caças inimigos.
O General Student, que capturara a ilha de Ijsselmonde, no Sul, onde se encontrava o aeródromo de Waalhaven, bem perto de Rotterdam, recebeu o reforço de mais 750 homens lançados de pára-quedas e também com reabastecimento para seus estoques de material. Os soldados holandeses da Divisão Ligeira tentaram por todos os meios possíveis chegar à ilha, mas eram sempre repelidos; a história também se repetiu perto de Oude Maas, onde os alemães se haviam entrincheirado solidamente. A falta de treinamento dos líderes militares holandeses foi um fator que, por toda parte, prejudicou a defesa; ela incapacitou, por exemplo, o ataque à ponte perto de Barendrecht, sofrendo os mesmos efeitos a própria cidade de Rotterdam. Os soldados ali estacionados, como em quase toda parte da Holanda, tinham pouco ou nenhum treinamento; alguns eram recrutas totalmente inexperientes a ponto de não terem tido sequer a chance de aprender a manejar uma arma.
O general Winkelman retirou três batalhões das reservas perto de Grebbeberg para ajudar Rotterdam; juntamente com um quarto batalhão primeiramente enviado para Leyden, eles formavam a ajuda tão necessitada pela força extremamente nervosa e muito inadequada do exército a que estava entregue a defesa da cidade. Eles totalizavam muito maior número do que os prováveis 1.000 alemães responsáveis pela captura de Rotterdam-Sul, a ilha Noorder limítrofe e a pequena cabeça-de-ponte da extremidade norte de Willemsbrug. Houve uma tentativa de expulsar os soldados alemães das posições que ocupavam, por meio de bombardeios (necessariamente leves), mas sem resultado algum. Devido ao fogo de interdição disparado da ilha Noorder, não houve condições de ali posicionar a artilharia; a única a ficar na posição exigida na margem do rio a 10 de maio fora levada para Hillegersberg, onde se julgava ser mais necessária. Além disso, o posto de observação nos túneis de ventilação do Maas não podia ser usado e, por conseguinte, a artilharia, que estivera atirando regularmente contra Waalhaven, teve de suspender o fogo por algum tempo. Os aviões incapacitados no aeródromo tiveram mais de quatro horas de tranqüilidade para ser reparados; o bombardeio só se reiniciou muito depois que eles partiram.
A maioria dos soldados holandeses empenhava-se apenas no setor defensivo. Era tal a apreensão de que os alemães atravessassem o Maas em outros pontos, que se despenderam enormes esforços, desnecessários, aliás, e com a maior presteza. E até mesmo essa iniciativa tão mal orientada teve péssimo resultado, devido à confusão reinante entre os oficiais que dirigiam as operações e também houve suspeita de atuação da quinta-coluna. Nesse tempo tornou-se freqüente os soldados holandeses atirarem contra os próprios camaradas, supondo estar atingindo alemães disfarçados ou holandeses renegados.
Pela manhã, o Comandante do destróier britânico Wild Swan ofereceu-se para subir o Nieuwe Maas até Rotterdam e bombardear Waalhaven com os canhões do seu navio. O oferecimento não foi aceito já que representava perigo para os soldados que haviam recebido ordens de recapturar Waalhaven. Às 12:30 horas do mesmo dia, o Almirantado mandou o comandante executar a missão, mas o bombardeio ainda assim não se concretizou devido a boatos no Hook de que Waalhaven fora retomada. Assim, os holandeses no Maas tiveram que agir sem contar com o apoio de artilharia. A essa altura, os combates ocorriam por toda parte e a White Huis, ou Casa Branca, importante marco local devido à sua posição estratégica, teve de ser abandonada.
Um incêndio iniciado no Boompjes estava agora se propagando a vários navios no Wijnhaven que já se encontravam envolvidos pelas chamas. Uma fumaça asfixiante e de cheiro desagradável pairava nas diversas áreas de Rotterdam perto do porto. Durante a tarde, os alemães montaram metralhadoras no Statendam, da Linha Holland-Amerika, atracado no Wijnhaven. A tripulação conseguiu escapar, apesar das ordens recebidas no sentido de permanecer a bordo, e os holandeses começaram a atirar contra o belo navio, causando, naturalmente, consideráveis danos além de provocar vários incêndios - e também despertando grande indignação entre os diretores da Linha Holland-Amerika, que perguntaram às autoridades militares por que não podiam afundar o navio com um único tiro certeiro. Aparentemente, isso não era possível. Um barco de corpo de bombeiros que foi ao Statendam com a intenção de apagar os incêndios, teve de voltar, por ter sido morto o seu comandante. À noite, o navio, que ainda não chegara a 11 anos de existência, não passava agora de uma enorme bola de fogo. O mesmo destino sofreram os navios Dinteldijk, Bosdijk e Veendam.
A população da ilha Noorder sofreu muito: a 10 de maio os sistemas de abastecimento de gás e água cessaram de funcionar, e no dia 11 todos os prédio situados na extremidade oeste da ilha ardiam como sinais luminosos e o cais teve de ser evacuado. Milhares de criaturas foram obrigadas a se abrigar em escolas e outros prédios que pudessem comportá-las; só na escola católica havia 500 pessoas, muitas delas portando seus animais de estimação. A escola tinha somente dois sanitários, e, é obvio, sem água. Uma alemão que morava na Holanda havia muitos anos, feroz adversário do regime nazista, ofereceu-se para uma perigosa missão. Seu negócio fora destruido no dia anterior, ele sofria de úlcera, era judeu e não tinha parentes vivos; não dava mais valor à vida e queria fazer algo de útil aos seus semelhantes. Havia uma necessidade premente de água para todos os fins e ele foi repetidamente buscá-la no Prins Hendrikkade, sempre arriscando a vida ao fazê-lo.
Aqueles que ainda tinham casa intata raramente saiam. Os soldados alemães, entretanto, já haviam começado a invadi-las, em busca de homens e meninos para cavar trincheiras. Choltitz estava decidido a resguardar a ilha Noorder e o Willemsbrug até o fim, na esperança de que a 9ª Divisão Panzer chegasse a tempo. Preferiu ignorar a ordem do General Student que o mandava abandonar a pequena cabeça-de-ponte na costa norte, na noite de 11 de maio.
Com os dois únicos bombardeiros que a Força Aérea Holandesa ainda podia dispor, fez-se uma tentativa no sentido de destruir Willemsbrug e eliminar a cabeça-de-ponte alemã na ilha Noorder. As bombas não acertaram a ponte, mas, errando o alvo, muitas foram cair sobre várias casas na extremidade oeste da ilha e provocaram incêndios que deixaram mais outros milhares de pessoas ao desabrigo. À tarde repetiu-se a tentativa, e mais uma vez inutilmente. Ao voltar a base, a pequenina força de bombardeiros teve de enfrentar 12 caças alemães e perdeu um bombardeiro e um caça, restando à Força Aérea Holandesa apenas um bombardeiro.
O segundo dia da guerra fora uma catástrofe. À leste da Linha Grebbe, a faixa de postos avançados fora perdida e a posição Peel-Raam, abandonada; a defesa do Zuid-Willemsvaart ruíra por terra e os soldados holandeses em Noord-Brabant estavam em pânico. A Divisão Ligeira não conseguira atravessar o Noord e expulsar os alemães da ilha Ijsselmonde; o 6° Batalhão de frente fracassara na cabeça-de-ponte em Moerdijk e o 3° estava isolado, perto de Barendrecht, no Oude Maas. Em Rotterdam, os alemães ampliaram seu ponto de apoio na extremidade norte do Willemsburg e consequentemente todos os ataques desfechados contra suas tropas aeroterrestres perto de Delft, Haia, Wassenaar e Valkenurg tinham sido repelidos.
Metade da munição destinada aos canhões AAe holandeses foi consumida logo no primeiro dia da guerra. As modernas baterias pesadas haviam sido fornecidas pela Vickers inglesa, que deveria enviar outros suprimentos de munição. Mais à solicitação urgente feita pelo Adido Militar holandês em Londres para dar prioridade ao pedido holandês, responderam que nada havia daquele calibre em estoque, no momento.
Os invasores tinham a certeza de que seria fácil destruir a resistência adversária. Por reconhecimento aéreo eles sabiam que os holandeses careciam de artilharia para a defesa da faixa de postos avançados de Grebbeberg; mesmo que defendessem, ou não, o Grebbeberg até o último homem, isso não importava muito aos alemães, que esperavam para breve a chegada da 9ª Divisão Panzer, a Rotterdam, através de Moerdijk e Dordrecht. Significando que, bem atrás das tropas holandesas que estavam defendendo a Linha Grebbe e a Nova Linha Costeira, 150 tanques pesados alemães podiam ir diretamente para Haia, para a sede do governo holandês e para a residência da Família Real.
Os
dias três e quatro A 12 de maio, domingo de Pentecostes, tanques da 9ª Divisão Panzer (DP) chegavam à ponte Moerdijk. A posição Won no norte da Holanda, destinada à defesa do Afsluitdijk, foi tomada e houve luta renhida perto da Linha Grebbe (no leste da Holanda). Na vizinhança de Wageningen, os alemães encetaram um bombardeio violento que os holandeses, embora com muito empenho, não conseguiram deter.
Em Rotterdam-Zuid e em outras áreas da ilha Ijsselmonde, o General Student tivera a sorte de encontrar cerca de 100 caminhões, que usou para transportar todo um batalhão de soldados aeroterrestres, três baterias de artilharia e alguns canhões antiaéreos. Mais ou menos por volta das 13 horas, a coluna passou sobre o Oude Maas e pouco depois atacou e tomou a estação ferroviária de Dordrecht e toda a área das redondezas. Um gasômetro explodiu e o clarão iluminou tudo em volta quando anoiteceu.
Eram quase 17 horas, batedores da 9ª DP, em carros blindados leves, começaram a cruzar a ponte Moerdijk. Um segundo-tenente holandês, feito prisioneiro pela manhã, e que viu os carros blindados percorrer a rodovia em direção ao centro da ilha de Dordrecht, recebeu ordens de ir ao encontro do oficial-comandante das tropas holandesas ali estacionadas e recomendar que se rendesse. O comandante em questão era o Coronel van der Bijl, encarregado da Divisão Ligeira que acabara de chegar à ilha e instalara seu posto em Dubbeldam, cerca de 1.600 metros de Dordrecht. Ele imediatamente pegou o telefone para informar o comandante da Fortaleza Holanda, General van Andel. Este supôs que a aproximação de veículos blindados nada mais era que o produto de imaginação do coronel, por ter dado ouvidos apenas a boatos; além disso, fora informado pelo General Winkelman que carros blindados franceses estavam a caminho para lhes dar apoio, sendo bem possível, portanto, que eram eles que chegavam... Carros blindados alemães? Impossível... e o próprio Vander Bijl não tivera tempo de verificar o que havia de verdade na mensagem trazida pelo segundo-tenente. Enquanto isso, o coronel dirigia-se a Dordrecht, a fim de providenciar algumas mudanças no comando da artilharia. (Sua missão tinha como objetivo certo Tenente-Coronel Mussert, irmão de Mussert, o líder do NSB, de quem se desconfiava, e com boas razões, de ser indigno de confiança. Ainda ouviremos falar dele. Van der Bijl destituiu Mussert do comando da artilharia de Dordrecht, mas o General van Andel cancelou a demissão e colocou Mussert sob o comando direto de van der Bilj). A viagem do coronel não foi fácil. A essa altura a força alemã já penetrara entre Dubbeldam e Dordrecht. Ele decidiu então fazer um desvio com seu estado-maior pela ferrovia a oeste de Sliedrecht e dali cruzar até Dordrecht, utilizando-se da barca de Papendrecht. Tarde da noite ele chegou a Papendrecht apenas para encontrar a barca atracada na outra margem do rio e avariada.
O comandante da Divisão Ligeira via-se agora isolado da ilha de Dordrecht e das demais tropas ali estacionadas, onde se encontravam também os carros batedores da 9ª DP e seus primeiros tanques pesados que haviam chegado. Durante a noite, as tropas holandesas recuaram para o centro da cidade de Dordrecht, extremamente cansadas, famintas e de moral abatido. Nenhum dos seus ataques fora bem sucedido; os aviões alemães haviam chegado um após outro sem que aparecesse um só dos aliados.
Os holandeses posicionados diante de Willemsdorp, em Beijerland, na margem oeste do Kil, tinham visto os carros blindados cruzar a ponte de Moerdijk à tarde, mas não fora impossível determinar se eram alemães ou franceses. Jogando com a sorte, eles atiraram contra os veículos e viram estar certos na sua decisão quando foram atacados e metralhados por 20 bombardeiros alemães ao anoitecer de 12 de maio. Eles continuaram patrulhando a ponte até a tarde do dia seguinte. O comandante alemão em Willemsdorp estava na expectativa do desembarque, na ilha, de um grande contingente holandês reforçados, sem dúvida, por tropas britânicas.
As baterias holandesas alojadas nas proximidades das pontes de Moerdijk necessitavam desesperadamente de munição, e ela havia chegado, 12 toneladas, de caminhão, no sábado, com destino a Beijerland, e fora depositada no navio De Twee Gezusters, que tentou passar sob a ponte dominada pelos alemães, mas foi atingido por um intenso fogo de artilharia, obrigando-o a voltar para Goribchem - com toda aquela tonelagem de explosivos a bordo, ele era pouco mais que uma bomba flutuante. Pouco depois fez-se nova tentativa, desta vez com uma tripulação de voluntários das forças armadas e, escoltado pela canhoneira Christiaan Cornelis, o navio rumou para Dordrecht. Por incrível que pareça, não houve um só tiro contra eles vindo das pontes do Doerdijk, mas no Dordtse Kil foram surpreendidos por um tremendo bombardeio proveniente da ilha e metralhados por aviões. A Christiaan Cornelis foi obrigada a retirar-se, bastante avariada, para o Hollands Diep, puxada pelo rebocador Robur, que também sofrera consideravelmente, mas o Twee Gezusters, ainda sob forte ataque, conseguiu chegar ao pequeno ancoradouro de Strijensas, perto de Dordrecht, onde a munição foi descarregada com toda rapidez. O capitão morreu e o timoneiro ficou gravemente ferido.
Durante a noite houvera pânico no QG antiaéreo em Dordrecht e, em conseqüência, a instalação telefônica ali fora destruída. Destruição esta, aliás, desnecessária, motivada apenas por boatos infundados, mas aceitos como notícias verídicas. Chegara uma mensagem dizendo que o inimigo marchava pelo Coolsingel, e para que os alemães nada encontrassem que lhes fosse útil, todo o equipamento foi destruido, e o estado maior fugiu. O departamento de manutenção dos Correios instalou as linhas principais no dia 12 de maio, mas as comunicações, nesse ínterim, ficaram bastante deficientes.
Em Rotterdam, o comandante da guarnição, Coronel Scharroo, recebera como reforço 5 batalhões, nos dias 10 e 11 de maio, e em vista disso, parecia inexplicável que os alemães ainda estivessem de posse das pontes do Maas. O General Winkelman mandou o Tenente-Coronel Wilson a Rotterdam, juntamente com dois outros oficiais de estado-maior, investido de plenos poderes para substituir Scharroo em caso de necessidade. Quando Wilson, acompanhado de três carros blindados, chegou a Rotterdam, verificou que as tropas estavam sendo totalmente empenhadas na proteção da cidade a oeste, norte e leste e para guarnecer o longo limite do Maas. Além disso, vários destacamentos vasculhavam as casas em busca de prováveis elementos da quinta-coluna.
Os dois primeiros bombardeios desfechados pelos alemães, na manhã de domingo de Pentecostes, haviam destruido o hospital de olhos e várias casas entre Oosrplein e a Estação Beurs. Por razões de segurança, Scharroo mudara seu QG para o distrito de Blijdorp, no norte da cidade.
Wilson concluiu não ser viável usar as tropas do Maas. Telefonou pedindo mais reforços e teve a promessa de lhe mandarem o 2° Batalhão de Caçadores, da guarnição no Hook. Às 14 horas o comandante daquele batalhão recebeu ordens de marchar imediatamente com sua unidade para Rotterdam, o que não foi possível, por estar, uma das suas companhias, dispersa em dispositivo de defesa pela ilha Rozemburg. Somente à 01:30 horas do dia seguinte é que o batalhão ficou reunido e pronto para partir para Rotterdam, quase 12 horas após ter recebido a ordem. E esse espaço de tempo foi muito bem aproveitado pelos alemães, que o usaram para preparar suas trincheiras, perto das pontes do Maas. Wilson, que tomara a estrada de Gouda para Rotterdam por supor que aquela que passava por Delft estivesse ocupada pelos alemães, quis verificar se suas suposições tinham fundamento e mandou um dos três carros blindados para o Delft. Houve troca de tiros perto de Overschie, mas, fora isto, o carro blindado chegou a Delft sem quaisquer dificuldades. A estrada, no entanto, estava entulhada de destroços de veículos alemães abandonados.
A ordem emitida pelo Comandante da 1ª Divisão visando atacar na direção de Rotterdam através de Delft não foi alterada. Viram-se, pára-quedistas descendo perto de Rotterdam. Os atacantes se aproximaram até 2.400 metros de Overschie, atirando, entrementes, contra os pára-quedistas, mas não conseguiram chegar à cidade. Os restos da 22ª Divisão Luftlande, que recebera ordem de recuar para o sul de Delft, foram mais para o sul e chegaram a Overschie a 12 de maio. Deles partiram os tiros contra o carro blindado de Wilson. No mesmo dia, mais soldados foram para Overschie, onde não havia tropas holandesas para oferecer resistência.
Da força aérea holandesa pouco restava. Alguns caças e o único bombardeiro de que podiam dispor tentaram atacar perto da posição Won, mas não conseguiram romper a defesa antiaérea alemã. O sucesso dessa tentativa não teria feito muita diferença, porque a posição Won já estava em mãos alemães.
Eles foram ligeiramente mais bem sucedidos perto de Wageningen. Para levantar o moral do Estado-Maior terrestre holandês, o General von Voorst pedira o concurso da força aérea para atacar alvos a oeste de Wageningen. Um dos pilotos dos lentos e antiquados C-5 disse mais tarde que podia distinguir Wageningen na distância, envolta num lençol de fumaça e chamas; tomou aquela direção e de súbito foi atacado por três caças alemães - Messerschmitts 109 ou Heinkels 112 - bastante velozes e fortemente armados. Afastou-se, num mergulho, em meio a uma saraivada de balas e traçadoras, mas nesse momento descobriu-se que o aparelho não obedecia aos controles e antes que tivesse uma chance de saltar, o avião atingiu um dique a toda velocidade, deu um tremendo salto e caiu. Quando o piloto recuperou os sentidos, viu-se empapado de gasolina, o avião emborcado e o tanque de combustível vazava seu conteúdo sobre os canos de descarga ainda quentes. Felizmente, nenhuma das bombas ainda presas ao aparelho tinha explodido com a colisão. O pé do piloto ficara preso, mas ele conseguiu libertar-se e se afastar dos destroços. Ao todo, realizaram-se 48 missões a 12 de maio, mas sem grandes vantagens.
A rendição prematura da posição Won desapontara profundamente o General Winkelman, que estava muito pessimista sobre a situação toda: as pontes de Moerdijk, Dordrecht e em Rotterdam permaneciam em poder dos alemães e a faixa de postos avançados perto da Linha Grebbe tampouco fora recapturada. A Luftwaffe era esmagadoramente forte e os estoques de munições holandeses estavam sem dúvida alguma chegando ao fim (restava menos de ¼ do estoque de munição antiaérea). Ele disse ao Gabinete que a guerra estaria perdida em mais alguns dias no máximo, a menos que a ajuda aliada viesse logo, e a Holanda não teria outra sadia senão capitular. Um telefonema urgente enviado ao governo britânico dizia que a situação era tão precária, que sem a ajuda dos aliados era impossível deter o avanço alemão e a resistência em breve se esgotaria. Somente com ajuda imediata a situação poderia ser salva. Dijxhoorn também telefonou a vam Kleffens em Londres. Providencialmente, van Kleffens tinha um encontro com Churchill que, desde 10 de maio, era o Primeiro Ministro e Ministro da Defesa; mas, no entanto, Churchill só o que fez foi lamentar por não estar em condições de dar a ajuda pedida. Van Kleffens requisitara três divisões, mas as únicas tropas disponíveis pertenciam ao Exército Territorial, uma espécie de Guarda Civil. Contudo, podia-se apelar para a Marinha Real. Churchill encarregou-se de enviar todos os destróieres disponíveis para o Waddenzee (as águas compreendidas entre as ilhas e a costa norte da Holanda) e bombardear, dali, o Afsluitdijk, o que não parecia má idéia. Mas três lanchas-torpedeiras passaram pelo Noordzeekanaal até Ijsselmeer e apenas um destróier apareceu no Waddenzee, por pouco tempo, a 13 de maio. A Real Força Aérea bombardeou o aeródromo de Waalhaven, sem muito resultado. Afinal, tudo não passou de um gesto puramente simbólico.
Na Linha Grebbe, os alemães haviam encontrado resistência além da que esperavam, mas não se preocuparam muito com isso, porque a 9ª DP já havia chegado à ponte de Moerdijk, vinda do sul. Hitler aproveitou ao máximo o seu êxito acrescentando a 22ª Divisão Luftwaffe à 9ª DP que, juntamente com a 7ª Divisão Flieger a o SS-Leibstandarte Adolf Hitler - deslocado do Veluwe (Gelderland) para Noor-Brabant -, formaram o 39° Armee-Korps, sob o comando do General-leutnant der Panzertruppen R. Schmidt
O general Winkelman só soube que os tanques alemães já haviam chegado à ilha Dordrecht, às 23:30 horas, pela Rádio Bremen. Portanto, a situação era ainda pior do que supunha antes e ele se preparou para uma entrevista a horas mortas com a Rainha e o Gabinete, para informá-los da gravidade da situação. Ao chegar, às 03:30 horas, ele não teve de aguardar por muito tempo para apresentar seus respeitos à Rainha. É que ela estivera ocupada, tomando providências no sentido de resolver a questão de abrigo e segurança para sua filha e respectiva família, e não pudera dormir desde que o caminhão fornecido pelo Banco Neerlandês as levara, tarde da noite, para o navio inglês que as aguardava. Quando soube de Winkelman que a situação era tão séria e que somente a ajuda aliada maciça poderia salvar a situação, ela decidiu telefonar ao Rei da Inglaterra. O general concordou que esse contato pessoal talvez fosse benéfico e às 04:15 horas o Rei Jorge VI foi despertado por um sargento da policia que lhe disse que a rainha da Holanda estava no telefone. Não acreditei nele, escreveu o Rei em seu diário, mas fui atender e era ela em pessoa. Implorou-me que mandasse aviões para a defesa da Holanda. Transmiti a mensagem a todos os interessados e deitei-me novamente. Nem sempre nos telefonam a essas horas, especialmente uma rainha. Mas nestes tempos qualquer coisa pode acontecer, e até coisas muito piores.
A Rainha Guilhermina já mandara um telegrama pessoal ao Rei da Itália pedindo-lhe que usasse sua influência junto ao seu aliado político para salvar a Holanda. Contudo, ele nada podia fazer, assim como o Papa Pio XI, que, a 10 de maio, enviara um telegrama à rainha expressando sua simpatia, sendo vigorosamente censurado pelo Duce por esse ato de solidariedade humana.
Após sua conferência com a rainha, o General Winkelman foi para o edifício do Gabinete. E neste, seus membros, ao receber a notícia, acharam que era hora da rainha partir o mais rápido possível, ao que Winkelman opôs-se, radicalmente, considerando que se a população soubesse que a rainha deixara o país, o moral cairia tanto que toda a resistência enfraqueceria. Não partilhava, no entanto, dessa opinião o Ministro Dijxhoorn, que achou mais aconselhável a partida da rainha, a bem de sua própria segurança e para evitar ser aprisionada e transformada num bom refém e com isso manter a Holanda sob vigilância. Quando Dijxhoorn informou de sua decisão ao Vice-Almirante Furstner, e aconselhando-o a mandar o resto da esquadra para a Zelândia, este último ficou profundamente abalado. O almirante nem imaginava o quanto era grave a situação e acusou os ministros de derrotismo desprezível, dizendo: É este o país de Tromp e De Ruyter? Os tanques alemães aproximavam-se de Rotterdam, a Fortaleza Holanda estava ameaçada bem no seu âmago e Winkelman queria lutar até o fim, mas Dijxhoorn achava desumanamente irresponsável desperdiçar mais vidas por uma causa perdida. Era imperioso que a rainha deixasse Haia imediatamente e o Gabinete deveria acompanhá-la. Finalmente chegou-se a um acordo e Dijxhoorn iria ter com a Rainha para aconselhá-la a partir. Ela recusou-se a atender ao apelo do ministro, mas ouviu os argumentos do general e depois de pesar seriamente os prós e contras achou por bem refugiar-se na Zelândia (O destino contudo, decidira que ela iria para a Inglaterra: uma transmissão radiofônica informando que o céu sobre a Zelândia estava repleto de aviões alemães provocou a mudança em direção a Harwich, como descreveremos mais adiante. A esperança de que pudesse obter ajuda militar real para seu povo, se pedisse ela mesma, ajudou-a a aceitar o fato de estar deixando o país),
Nesse meio tempo, mais tanques da 9ª DP chegavam a Dordrecht e também considerável reforço para a Luftwaffe. As tentativas no sentido de retomar a ilha de Dordrecht fracassaram por completo. Na noite anterior preparara-se um plano para atacar as forças alemães de Dordrecht para oeste e da estação das barcas de Wieldrecht para leste, fechando assim a rodovia Moerdijk-Dordrecht, que atravessava a ilha. Infelizmente, o plano fracassou na prática. O destacamento que avançava da estação das barcas de Wieldrecht foi alvo de ataques incessantes por bombardeiros desde o começo da manhã; uma seção da importante defesa antiaérea foi destruída e a casa de fazenda onde se estabeleceu o posto de comando das forças atacantes pegou fogo. Então viram tanques aproximando-se do oeste, ostentando marcas de identificação de tecido amarelo usadas pelos alemães para distinguir seus próprios tanques, para que não atirassem uns contra os outros por engano. Alguns soldados holandeses confundiram essa cor com laranja e começaram a espalhar o boato de que os franceses tinham finalmente chegado. Quando vários holandeses correram entusiasmados ao encontro dos supostos aliados, o primeiro tanque abriu fogo. Dois tanques dos aliados foram destruídos e os outros recuaram, mas os intensos ataques aéreos lograram dispersar as demais unidades holandesas.
O centro de Dordrecht estava preparado para defesa. Todos os acessos estavam bloqueados por barricadas e a maioria das pontes foi erguida, exceto onde canhões antiaéreos estavam posicionados. À tarde, 12 tanques alemães aproximaram-se, mas antes que os defensores tivessem chance de abrir fogo, o ajudante-de-campo do traidor Tenente-Coronel Mussert foi-lhes dizer que os tanques franceses se aproximavam. Os holandeses começaram a acenar alegremente bandeiras vermelho, branco e azul, e a tripulação do primeiro tanque à vista também acenou e, de súbito, abriu fogo bem à frente da ponte, mas não a cruzou, e embora alguns tanques conseguissem entrar em Dordrecht, onde causaram tremenda destruição, eles não se sentiram muito seguros e acharam melhor retroceder para o lugar de onde vieram. As pontes foram bloqueadas com maior segurança e construíram-se novas barricadas, mas Mussert, ainda usando da sua influência, ordenou que se mantivessem abertas algumas estradas para facilitar o transporte de feridos. Oficiais do Corpo de Bicicletas (sic) fizeram objeções a isso, pois os alemães, disseram, aproximavam-se, mas ele desprezou a crítica e lhes disse que estavam vendo apenas fantasmas. Os oficiais concluíram que ele só podia ser um quinta-coluna e daí por diante ignoraram suas ordens.
Por fim, o Coronel van der Bijl, ordenou que todas as tropas recuassem de Dordrecht para a outra margem do Merwede, e depois que os últimos soldados holandeses cruzaram o rio, as barcas foram afundadas. As tropas estavam compreensivelmente desmoralizadas e muitos soldados já consideravam Mussert um traidor. Diante disso um grupo de oficiais resolveu prendê-lo por suspeita, mas ao receber a ordem para se render, erguendo os braços, ele se rebelou e respondeu que não se deixaria prender por um simples capitão. Atire se for homem, redargüiu ele, e àquela frase, um pouco indeciso o capitão pensou se estaria certo ao executar o homem, mas quando Mussert perguntou, a um tenente, quem era ele, e ao mesmo tempo baixava os braços, o tenente não teve dúvidas e atirou; algumas horas mais tarde, o Tenente-Coronel Mussert morria.
Com o único bombardeiro restante, um T-5, tentou-se destruir a ponte de Moerdijk. A primeira bomba errou o alvo e a segunda não explodiu. O bombardeiro e o caça que o escoltava foram derrubados por um grupo de Messerschmitts e todos os tripulantes morreram. A ponte de Moerdijk estava sendo alvejada pela artilharia holandesa desde o dia 12, mas essa tarefa era prejudicada pelo incessante bombardeio alemão. Um pouco mais ao sul, os alemães conseguiram cruzar o Kil, depois do que, o Gravendeel da aldeia foi incendiado. O gasômetro explodiu em chamas e a flecha da torre da igreja, contendo um posto de observação com quatro homens caiu. Para espanto de todos, os quatro homens saíram dos escombros, meia hora depois, ilesos.
O Coronel Scharroo expedira ordens visando à destruição das pontes mais importantes de Rotterdam. Para que se pudesse destruir o Willemsbrug e a ponte ferroviária que levava à ilha Noorder, era preciso, antes de mais nada, expulsar o alemães que já estavam lá havia três dias. A solicitação do Tenente-Coronel Wilson para que lhe dessem novo batalhão com um comandante bem enérgico foi atendida. À 01:30 horas de 13 de maio, o Batalhão de Caçadores partiu do Hook, e pela manhã logo cedo os soldados, exaustos, chegaram a Rotterdam. O cansaço era tanto, que muitos homens caíram no sono antes mesmo de tocar na comida dos pratos que tinham nas mãos.
O Cônsul-Geral Britânico em Rotterdam insistiu para que os soldados britânicos que haviam chegado ao Hook, um Batalhão da Guarda Real britânica, também deveriam seguir para Rotterdam o mais depressa possível. Estes eram soldados profissionais e estavam equipados com motocicletas e carros blindados leves. O comandante, porém, recusou porque isto contradizia as ordens que recebera de Londres. Ele poderia ir para Haia, se necessário, mas não para Rotterdam.
E de fato foi para Haia, onde informou que Rotterdam estava em mãos francesas, não havendo, portanto, perigo algum. Assim, só restavam Scharroo e suas tropas, mal dormidos e mal alimentados, tendo tido apenas uma refeição decente no período de quatro dias. Os fuzileiros navais voltaram a ajudá-lo, tendo trocado seus uniformes azuis por outros cáqui, para não ficarem muito expostos à vista. Houve uma má coordenação entre os comandantes, mas um destacamento dirigiu-se ao Boompjes (perto de Willemshaven), transpondo as urinas das casas destruídas pelo fogo, e ao chegar foi saudado pela visão de um porto cheio de navios em chamas. Os fuzileiros navais davam inicio ao assestamento das metralhadoras, quando de repente foram alvejados por alemães que se haviam entrincheirado no prédio da Companhia Nacional de Seguros. Houve baixas, alguns morreram e os que restaram tiveram de recuar, exceto seis homens, que ficaram isolados no Willemsbrug. Destes, um foi morto, outro ficou ferido, e os demais abrigaram-se atrás de uma placa de ferro que estava abaixo do nível da rua, onde ficaram por mais de 24 horas, sempre atirando de tocaia contra quaisquer alvo que aparecesse. E os fuzileiros, no entanto, ao recuar mal sabiam que a força alemã estava prestes a se render. A tentativa de destruir as pontes fracassara.
O tenente-coronel Wilson chamara o QG pela manhã para dizer que agora era evidente que a resistência continuada levaria, sem dúvida alguma, à destruição final de Rotterdam; o general Winkelman respondeu, todavia, que Rotterdam tinha de ser defendida, e se necessário, até o último homem. Quando o Tenente-Coronel von Choltitz (que 4 anos após, como general, se celebrizaria como o homem que não destruiu Paris) transmitiu a exigência de rendição a Scharroo, por intermédio do vigário da igreja da ilha Noorder, ele, portanto, teve de recusar. Já então, muitos trechos da cidade estavam em chamas e as ruas, entulhadas de vidros partidos e bondes abandonados; os engenheiros militares britânicos e holandeses tinham incendiado os depósitos de óleo no rio perto de Pernis; parecia, na verdade, que Rotterdam, seria totalmente destruída.
A situação não era melhor perto da Linha Grebbe. A 12 de maio um Standarte (regimento) das Waffen-SS penetrara ali profundamente e se tivesse conseguido aproximar-se de Rhenen, toda a área estaria tomada e os holandeses teriam de iniciar o recuo para a outra margem da Nova Linha Costeira Holandesa. Os soldados holandeses ali situados, por se acharem há muitos dias sem dormir, estavam praticamente inúteis para a luta e era de vital importância a sua substituição por homens descansados. Estes já deviam estar à espera há muito tempo. Quando os reforços finalmente chegaram, foram logo atacados pela infantaria da 207ª Divisão de Infantaria (DI), que substituíra o SS-Standarte. O fogo foi bastante violento, mas os holandeses resistiram tenazmente, em vários locais, até acabar a munição; a essa altura, nada mais puderam fazer senão renderem-se. Esses fracassos locais bastaram para facilitar a penetração dos alemães em algumas áreas, até a Linha de Obstáculo e tomar outros setores na retaguarda. Não foram poucos os homens que fugiram em pânico, e os capturados serviam muitas vezes de escudo aos alemães para obrigar os companheiros a se renderem. Pelo diário de um soldado holandês sabemos como ele foi confrontado por duas fileiras de alemães, cada uma com um prisioneiro holandês à frente. Os prisioneiros imploraram aos camaradas para que não atirassem e se rendessem. Muitos soldados holandeses não ligaram ao pedido e continuaram disparando, até que um dos prisioneiros de repente apertou o abdome e caiu, provavelmente atingido por um dos próprios camaradas.
Para compensar os exemplos de covardia apresentados no exército holandês houve, entretanto, inúmeras demonstrações de infinita coragem.
Quando o posto de comando do 1° Batalhão foi cercado, o major Lanzaat, o comandante, decidiu lutar até o fim. Eles haviam requisitado um pequeno restaurante do Zoológico de Rhenen, uma casa pequena, de paredes delgadas. Lanzaat estava acompanhado de alguns oficiais e soldados e seu armamento consistia de uma metralhadora leve, vários fuzis e revólveres e muita pouca munição. Eles instalaram a metralhadora sobre uma mesa e atiravam pela janela. Mas os alemães logo trouxeram uma peça de artilharia, o pavilhão não resistiu ao ataque e começou a desmoronar. O major foi ferido e mandou seus homens recuar pelas trincheiras atrás do prédio, mas ele próprio ficou ali, e acabou morrendo. O pavilhão foi reduzido a escombros.
Graças ao heroísmo dos poucos que, como o major Lanzaat, decidiram lutar a todo custo, a Linha Grebbe não caiu mais cedo. A ação do Tenente-Coronel Hennink é outro exemplo, impedindo a fuga de homens de um batalhão que chegara para reforçar a Linha Grebbe. Seu posto de comando, nos bosques, a nordeste do viaduto, estava sendo tremendamente bombardeado, resultando em muitos mortos e feridos. Perto do Tenente-Coronel, seu ajudante foi atingido nas costas por fragmentos de granada, e quando mandaram o soldado que estava próximo a Hennink buscar ajuda médica, ele comentou secamente que também estava ferido e chamou atenção para um dos seus olhos fora da órbita; apesar de seu horrível ferimento, levou o ajudante até o médico antes de procurar socorro para si próprio. Mas nem todos era tão corajosos como este soldado. Em sua maioria, os homens transferidos de outras unidades estavam completamente abatidos e se postavam encolhidos nos cantos das trincheiras, de onde foram expulsos por Hennink e destacados para posições, com uma patrulha especial investida de poderes para atirar caso tentassem fugir. Isso ajudou. Pelo anoitecer, o Tenente-Coronel entregou a bandeira do regimento a um sargento e um soldado raso que deveriam levá-la para a Fortaleza Holanda, o que foi feito com êxito. Descobriu-se mais tarde que dois dos três comandantes do 8° Regimento foram mortos, juntamente com 180 outros oficiais e soldados. A infantaria alemã ainda não conseguira atravessar a ferrovia. De manhã os atacantes das SS tentaram iludir a defesa do viaduto, envergando uniformes holandeses, mas a tentativa fracassou, porque eles ainda estavam usando as características botas alemães, e isso os traiu. Então a Luftwaffe veio em seu auxílio com 27 Stukas, mas os defensores, comandados pelo Capitão Gelderman, com dois tenentes, dois policiais da Marechaussée holandesa (ainda era mantida essa tradicional denominação francesa) e mais alguns homens que reabasteciam as duas metralhadoras e serviam o único canhão antitanques, permaneceram em seus postos. Finalmente, às 13:30 horas, um dos elementos do grupo de Gelderman conseguiu explodir o viaduto depois de trabalhar durante toda a manhã na colocação dos explosivos, debaixo de fogo intenso.
À tarde os soldados alemães foram metralhados por um batalhão holandês que abrira caminho até a ferrovia através de um fluxo constante de refugiados. obrigando o inimigo a abandonar a fábrica de móveis onde estava instalado, pois os reforços de artilharia haviam recebido ordens de bombardear a ferrovia defendida pelos holandeses. Eles ignoravam, a essa altura, estar o grupo de Gelderman completamente sem munição e acreditavam que a pesada resistência holandesa continuava firme. Na verdade, a defesa holandesa se esboroara por completo desde o meio-dia. O moral dos soldados holandeses fora solapado principalmente pelo fogo de artilharia intenso e constante ao qual estavam expostos, sem ao menos vislumbrar os alemães. O nervosismo crescia à medida que as notícias informavam a aproximação de infantaria alemã, provocando a fuga de vários homens seriamente afetados, logo em seguida atingidos por um esquadrão dos hussardos. O comandante do esquadrão informou ao seu superior que havia grande perigo de seu regimento ser cercado, e o comandante, não sabendo quantos soldados estavam realmente presentes, decidiu recuar para Elst. Durante todo esse tempo, a deserção se tornava muito freqüente. O Capitão Gelderman, ao enviar o ajudante com pedido de alimento para 600 homens (muitos nada comiam havia dias), alterou o número para 400 ao saber que um terço dos efetivos havia desertado. E, ao que parecia, entre os restantes, somente 15 homens ainda se mantinham em suas devidas posições.
Os soldados em pânico fugiam e eram logo atacados por bombardeiros de mergulho e artilharia, a ponto de seus oficiais não mais poderem tê-los sob controle. Além disso, em muitos casos os oficiais não sabiam onde encontrar seu superiores, já que os postos de comando haviam sido mudados por várias vezes. Não obstante, até aquele momento nenhum alemão atravessara a linha férrea e o alambrado que havia sido estendido sobre a ferrovia.
Em outros setores da Linha Grebbe a situação não era tão grave. A 2ª Divisão do IV Corpo de Exércitos recebeu excelente apoio de artilharia (o que não se deu com a 4ª Divisão, onde muita coisa ficava a desejar). O bombardeio holandês era tão eficiente que fez os alemães julgar estarem civis trocando mensagens telefônicas com observadores ocultos no terreno, e devido a isso toda a população de Ede foi evacuada para que o fato não viesse a se repetir. Somente pelo anoitecer é que os alemães conseguiram tomar alguns pontos na faixa de postos avançados, mas a linha de defesa principal ainda continuou intata.
Também houve certo êxito na posição de Betuwe, onde a Brigada A repelira, pela manhã, um ataque desfechado por cerca de 200 alemães no rio Waal (um tributário do Reno) e à tarde rechaçaram seus barcos que iniciavam a travessia, sendo que dois afundaram. À noite eles fizeram a tentativa de explodir a ponte ferroviária perto de Rhenen, mas as cargas de demolição não detonaram. Fogo de artilharia foi dirigido contra o local onde os explosivos estavam presos à estrutura e o último projétil disponível acertou, destruindo a ponte.
A única penetração importante que os alemães conseguiram fazer foi perto de Rhenen, e isso bastou, pois se a Linha Grebbe fosse rompida num só ponto ela teria de ser abandonada. Os IV e II Corpos de Exército, Brigada A e Brigada B, teriam de recuar para o limite leste da Fortaleza Holanda, atrás da Nova Linha Costeira Holandesa. Na verdade, a Linha não era nenhuma barreira intransponível. Supunha-se que grandes lençóis de água deteriam o avanço alemão, mas ninguém previra o baixo nível dos rios (devido ao tempo muito seco naquela primavera) e que demoraria muito tempo para que os pôlderes fossem inundados depois de abertas as comportas. A evacuação dos 23.000 habitantes da área, e seu gado, 60.000 animais, prosseguiu livremente, mas à noite quase todos os campos ainda estavam secos. Os soldados em retirada desconfiavam de que alguém estava traindo a operação. Além do fracasso da Nova Linha Costeira Holanda, o limite oriental da Fortaleza Holanda estava quase sem fortificações; não havia trincheiras, bunkers, postos de metralhadoras ou comunicações telefônicas. Além disso, a maioria dos soldados encarregados da defesa nunca estivera na área antes; para eles o território era totalmente desconhecido e isso representava uma considerável desvantagem.
Entretanto, no todo, a retirada em si foi bem satisfatória. Pequenos grupos às vezes eram capturados, mas por grande sorte, a Luftwaffe estava inativa durante esse tempo. Os trechos de nevoeiro denso que ocultavam a terra durante a manhã cedo serviam de abrigo muito bem-vindo.
O general Winkelman deu ordens para se formar uma ampla barreira antitanques em torno de Haia. A própria cidade foi também reforçada com poderosa guarda em todas as pontes. A defesa de Ijsselmeer empreendida pela marinha foi marcada por um agourento insucesso: a canhoneira Friso foi tão seriamente avariada por ataque aéreo que teve de ser posta a pique.
Todas as mensagens chegadas ao QG, sem exceção, eram extremamente desalentadoras. Havia razões de sobra para que o General Winkelman e o Major-General van Boorst tot Voorst considerassem a situação muito crítica. E tampouco estavam satisfeitos os generais alemães que tinham tido a esperança de acabar com a resistência no dia 10; ainda não lhes chegara ao conhecimento que os soldados holandeses localizados atrás da frente oriental haviam recuado para a Fortaleza Holanda e por isso julgavam não seria fácil esmagar a resistência. Também estavam apreensivos quanto à possível ajuda britânica que viria através de Ijmuiden e foi sobretudo por esta razão que o General von Kuchler recebeu ordens de tomar a Fortaleza Holanda o mais breve possível. Ele exigiu que no dia 14 toda a Linha Grebbe teria de ser rompida e penetrada e que a 9ª DP do 34° Corpo de Exércitos, sob o comando do General Schmidt, devia cruzar a linha Dodrecht-Rotterdam e prosseguir dali para Utrecht. Depois disso, seria preciso tomar Amsterdam para impedir a retirada do exército holandês para o norte da Holanda. Os soldados alemães que haviam tentado desembarcar em Noord-Holland pelo Ijsselmeer ainda estavam isolados em Kornwerderzand, onde a defesa ainda era vigorosa.
Mas os tanques tinham de, primeiramente, cruzar o rio Maas em Rotterdam onde a defesa continuava rija e persistente. Hitler enviou instruções aos seus generais, que as receberam a 14 de maio, para destruir a resistência surpreendentemente forte no menor espaço de tempo possível. Para isto, todos os efetivos da Lufwaffe estariam à sua disposição. Naquela noite, o General Schmidt recebeu ordens de Kuchler para romper a resistência em Rotterdam apelando para todos os meios, até mesmo a destruição da cidade, se preciso fosse.
Entrementes, a Rainha Guilhermina já estava a caminho da Inglaterra. Às 10h seu carro deixou Haia para o Hook. A viagem demorou mais de uma hora e a rainha por um triz escapou da morte quando uma bomba alemã explodiu perto do carro. Eles zarparam a bordo do destróier britânico Hereward com destino à província da Zelândia, mas tiveram de mudar de rumo devido às minas e aos ataques aéreos e, assim, Harwich passou a ser sua meta. Às 17 horas o Hereward apontou em Harwich onde um trem especial aguardava para levar a Rainha a Londres. O Rei Jorge e a Rainha Elizabeth estavam à sua espera na estação, assim como o embaixador holandês e os ministros van Kleffens e Welter, a quem ela disse: Temos de começar a trabalhar imediatamente. Com profunda relutância ela se deixou convencer a aceitar o inevitável, escreveu o Rei, que não a conhecera antes, em seu diário. Ela estava, naturalmente, aborrecida e não trouxera roupa alguma consigo.
A Rainha Gulhermina começou logo a trabalhar. Manteve uma conversa com van Kleffens que durou algumas horas e ela estava, como vam Kleffens registrou depois, chocada e tensa, mas perfeitamente controlada, nada abatida, decidida, e capaz de raciocinar com clareza. Um telegrama foi enviado ao presidente francês Lebrun, pedindo ajuda: se mais auxílio não fosse dado, o General Winkelman não teria outra alternativa senão capitular. Também se decidiu que van Kleffens tornaria a fazer idêntico pedido a Churchill. O Primeiro Ministro já estava dormindo, mas eles foram recebidos pelo Chefe do Gabinete Militar, Sir Harold Ismay, na Sala de Guerra no subsolo do Prédio do Gabinete. (Esta Sala de Guerra, contendo a suite particular de Churchill, ainda existe - situada a 12 metros abaixo da King Charles Street e da George Street, protegida por 9 metros de concreto-armado). O Tenente-Coronel van de Plassche mostrou uma perspectiva da situação na Holanda e van Kleffens fez um sumário das necessidades essenciais: As possibilidades na Holanda são as seguintes: Primeiro, deve-se prestar qualquer tipo de ajuda imediata, com a qual se poderá continuar resistindo eficazmente. Segundo, se não for possível da ajuda efetiva, o general, Comandante-Chefe terá poderes para agir como achar melhor, levando em conta, naturalmente, as forças militares e a população civil.
Ismay e seu convidado para fazer parte da reunião, Douglas, Subchefe do Estado-Maior da Aeronáutica, concordaram plenamente com o que foi proposto, embora ambos soubessem muito bem que era quase impossível à Inglaterra oferecer qualquer tipo de ajuda; eles nem sequer haviam tentado acordar Churchill.
Ultimato
e destruição Na manhã seguinte os holandeses souberam pelo rádio, que a rainha deixara seu país, e essa notícia deixou o povo, em sua maioria, profundamente derrotado e oprimido. Transmissões radiofônicas estrangeiras durante a noite já haviam notificado que a Rainha da Holanda chegara a Londres e esta informação, especialmente entre os militares, foi considerada como um aviso de que tudo estava perdido, e eles se sentiram abandonados. Tentou-se erguer o moral, divulgando a seguinte declaração: Pode-se considerar que a situação militar é a seguinte:
Nas províncias do Norte, o inimigo se firmou. A tentativa de penetrar até o Afsluitdijk à força não deu resultado. A parte norte de Rotterdam está firme em nossas mãos. Durante a noite passada o exército se retirou para a Nova Linha Fluvial Holandesa que conhecemos muito bem. A posição de Den Helder está totalmente intata. Em Brabant a situação não está clara. Temos a Zelândia bem firme em nosso poder. Nossas defesas aéreas, apesar das perdas, permanecem preparadas. A luta é árdua. Mas vale a pena lutar, porque a luta interessa à nossa existência independente por nós conquistada há séculos sob a liderança de Oranje. Viva Sua Majestade, a Rainha! Viva a Pátria!
Depois de divulgada esta proclamação pelo rádio, o QG recebeu uma mensagem do comandante da guarnição de Rotterdam. Ele recebera um ultimato para render-se no prazo de duas horas, ou a cidade seria totalmente destruída. O bombardeio inicial de artilharia teria seu começo às 13 horas, seguido, 20 minutos depois, pelo ataque da Luftwaffe, depois do que as tropas alemães cruzariam o rio, apoiadas por tanques e lança-chamas, marchando sobre Gouda e Utrecht e dali para Overschie e Haia. Como concessão, Choltitz permitiria que o elemento feminino da ilha de Noorder e os cidadãos abaixo de 16 e acima de 60 anos de idade cruzassem o Koninginnerbrug para Rotterdam-Zuid. Se os holandeses concordassem com o ultimato, os bombardeiros seriam notificados por Verey-lights (foguetes de sinalização) vermelhos e o ataque seria cancelado.
Perdeu-se muito tempo precioso porque o ultimato não estava assinado. No pé da página constava apenas: O comandante das Tropas Alemães. Segundo Wilson o documento era inútil e disse isto ao General Winkelman. O Coronel Scharroo não via motivo para a rendição; naquela mesma manhã ele mandou todos os canhões antitanques disponíveis para o Willemsbrug e preparou a destruição do viaduto ferroviário na estação de Beurs. Não se viam alemães ao norte do rio, e na sua opinião, o ultimato não passava de bobagem. Mas a decisão final cabia ao Comandante-Chefe. Às 11:45 horas Scharroo foi informado pelo QG que o ultimato só poderia ser levado a sério, se adequadamente assinado. Às 12:10 horas Scharroo enviou uma nota a Der Oberst-Kommandant der Truppen in Rotterdam, que foi entregue apenas 15 minutos antes de expirar o prazo do ultimato. O General Schmidt era de opinião de que o povo de Rotterdam estava disposto a negociar, do contrário não teria dado resposta alguma ao ultimato; deu ordens para adiar o ataque e redigiu uma mensagem radiofônica na qual declarava que o bombardeio de Rotterdam seria adiado por uma hora. Já eram 12 horas e metade dos bombardeiros já havia decolado da sua base para seu vôo de hora e meia até Rotterdam. Eles tinham instruções, como dizia no ultimato, de que cancelariam a missão se os Verey-lights vermelhos fossem disparados sobre a ilha Noorder. Mas o General Student perdera metade do seu equipamento de rádio durante o bombardeio de artilharia de Waalhaven e teve dificuldades em travar contato - assim, perdeu-se mais tempo precioso. Schmidt não recebeu notícias da Alemanha e já estava pensando que os bombardeiros não viriam. Quando Choltitz leu a resposta de Scharroo, avisou seu comandante, General Student. Este foi com seu superior, General Schmidt, e com o comandante da 9ª DP, de automóvel até o Capitão Backer, que transmitira a resposta de Scharroo a Choltitz. No verso da mensagem de Scharroo, Schmidt escreveu que era necessário permitir que tropas alemães penetrassem em Rotterdam à luz do dia, no norte do rio, que os corajosos soldados holandeses depusessem as armas, com os oficiais tendo permissão de conservar as suas. Backer disse que o Coronel Scharroo tornaria a entrar em contato com o QG e, se este concordasse, todos os soldados ao longo da frente do rio Maas seriam avisados, o que requeria algum tempo. Schmidt estava disposto a conceder três horas: ele assinou seu nome e posto e acrescentou: General-Comandante de um Corpo de Exército. Alguns minutos depois, inesperadamente, do sul e do leste, cerca de 100 bombardeiros alemães se aproximaram roncando.
O General Schmidt, que julgara que sua ordem para adiar a incursão aérea chegara à base implicada gritou: Deus Todo-Poderoso, será uma catástrofe! meu Deus, meu Deus, o que acontecerá? Será uma segunda Varsóvia!
Os Verey-lights vermelhos foram lançados; Schmidt mandou jogar na rua vários fardos de algodão tirados de uma grande loja, mas já era tarde demais. O líder do esquadrão que se aproximava, do sul, viu os Verey-lights e desviou-se com seus aviões, mas os três primeiros aparelhos já tinham despejado suas bombas. A maior parte da força de bombardeio continuou para cumprir a missão. Em Rotterdam, os habitantes corriam para os porões ou se jogavam ao chão, nas ruas, senão podiam chegar ao abrigo de uma casa a tempo - incluindo até mesmo alguns soldados alemães.
Em pouco o ar estava repleto do uivo das sereias de alarme antiaéreo, do ronco surdo dos bombardeiros, do silvo das bombas que caiam e do ruído surdo das primeiras explosões.
Rotterdam agora sofria as cenas de carnificina e devastação que, começando com Guernica, prosseguiram, de ambos os lados, numa escalada cada vez mais horrenda até as incursões incendiárias contra Tóquio e os atos finais da Segunda Guerra Mundial, os ataques nucleares a Hiroxima e Nagasaki.
No porão de uma pequena loja da Oosrplein, mais de 30 homens, mulheres e crianças estavam espremidos de tal forma que quando a parte dos fundos do porão foi atingida por uma bomba, os que não foram afetados nada puderam fazer para ajudar os outros, cujos gemidos eram pontilhados pelo som de outras explosões. Os encanamentos de água foram atingidos, os de gás e a rede de energia, destruídos e o sistema telefônico sofreu colapso total. As imensas fontes dos canos de água rompidos, diminuíram, uma vez perdida a pressão, e naturalmente, quando mais necessária se tornou, toda ela havia acabado.
Mais bombas caíram. A loja de departamentos Bijenkorf, o Hospital Municipal, a Delegacia de Policia, o edifício De Doelen, o quartel do Corpo de Bombeiros, o hospital volante Raampoort e a penitenciária de Noordsingel, cujos presos foram libertados - tudo foi atingido. Do De Doelen, grande número de alemães hospedados e membros do NSB fugiram para as ruas, ferindo as mãos no arame farpado. Dos prédios em chamas, pessoas saiam correndo com as vestes ardendo para morrer horrivelmente nas ruas. Não se podia chamar o Corpo de Bombeiros, porque os telefones não funcionavam; o que já não importava, pois o próprio quartel dos bombeiros estava em urinas; as ruas estavam bloqueadas em muitos lugares pelos escombros e, naturalmente, o abastecimento de água fora sumariamente interrompido. Alguns bombeiros, por iniciativa própria, tentaram extinguir os incêndios, que se alastravam, mas por muito que fizessem seus esforços nada significavam diante da gigantesca conflagração que se desenvolvia. Fragmentos de madeira incandescente e nuvens de fagulhas eram levados pelo vento, incendiando cortinas agitadas pelo vento através de janelas destruídas (a maioria das vidraças fora partida por explosões de bombas) e provocando incêndios em casas ainda praticamente intatas. Além disso, fortes lufadas de vento oeste contribuíam para a propagação do fogo com grande rapidez.
Depois da incursão, o Coolsingel estava ardendo por todos os lados; o ruído característico do fogo alastrando-se e o baque surdo dos escombros ao desabarem pareciam fortes demais na calma advinda após o bombardeio. Os animais perigosos do Diergaarde Blijdorp (o zoológico) tinham sido mortos no dia 12 e quando o bombardeio começou, todas as outras jaulas foram abertas para dar aos animais alguma chance de sobrevivência, caso o zoológico também fosse atingido.
As pessoas que saíram dos seus abrigos estavam estupeficadas pelo choque. Tudo ao seu redor parecia arder e era difícil respirar por causa da fumaça acre irritando a garganta e o nariz. Nas ruas e nas próprias casas em chamas havia cenas pungentes. Diante de uma casa estavam seis corpos espalhados no pavimento - toda uma família - e em outra ruína, um menino jazia pendurado de cabeça para baixo, preso entre as vigas caídas; incapaz de livrar-se, ele deve ter visto o fogo vindo em sua direção. Em outro lugar, a mão de uma criança aparecia entre os escombros; podia-se também ver um corpo humano esmagado contra uma porta e outro pendente de uma janela.
A maioria dos sobreviventes fugiu dessa devastação o mais depressa que pôde; só o calor já era insuportável. Em vários momentos após o bombardeio se encontravam pessoas que não tinham conseguido escapar. Um açougueiro procurara abrigo no seu frigorífico e três mulheres se abrigaram num cofre: as portas haviam emperrado e os três morreram asfixiados, incapazes de se livrarem. Grupos de salvamento de emergência escavavam febrilmente os montes de escombros na esperança de encontrar sobreviventes. Às vezes as pessoas conseguiam abrir caminho nos escombros: os que sobreviveram às bombas no porão da loja em Oostplein, por exemplo; ao desobstruir a escada dos escombros maiores, para apressar sua escapada, um deles encontrou algo mole, era a cabeça esmagada de uma jovem. Eventualmente eles abriram uma saída estreita suficiente para o homem mais magro do grupo sair, mas a abertura ruiu novamente. No fim da tarde, os outros foram descobertos por um membro do corpo de bombeiros auxiliar. Cobertos de sangue de cortes feitos por cacos de vidros espalhados por toda parte, eles saíram do monte de escombros para finalmente ver o sol - uma bola ardente em meio às nuvens de poeira.
O incêndio do hospital era incontrolável e a única solução foi evacuar todos os pacientes. Homens saídos diretamente das salas de cirurgia estavam ajudando; pessoas eram trazidas da rua para dar uma mão. Os pacientes foram levados para a igreja católica, onde havia um hospital de emergência, e quando este ficou lotado, outros pacientes foram levados para a Laurenskrek. Estas duas igrejas não demoraram a pegar fogo e os pacientes tiveram de ser removidos novamente para outro local - quase uma impossibilidade, pois não havia segurança em lugar nenhum. Todo o centro da cidade estava em chamas.
A conflagração continuou avançando para o leste, com um quarteirão após o outro sucumbindo às chamas. Era inútil qualquer ação preventiva. As pessoas levavam coisas fáceis de transportar, às vezes um simples pedaço de queijo ou um pão, e fugiam. Muitos dormiram ao relento naquela noite, porque não se atreviam a entrar numa casa após os horrores porque tinham passado. Milhares foram para o Kralingerhout, um bosque nos arredores de Rotterdam onde, a noite inteira, pessoas vagavam chamando seus parentes. À vezes elas encontravam pais ou filhos, a quem julgavam mortos, mas quase sempre a busca era infrutífera.
Durante a noite o vento mudou e então soprava forte do leste, espalhando o fogo para o setor oeste da cidade, que até então parecia seguro. Um grande clarão pairava sobre a cidade em chamas.
À tarde, as pessoas em Betuwe tinham visto o sol estranhamente obscurecido, como um eclipse, e agora, com o anoitecer, eles viam o apavorante brilho dos incêndios na direção da grande cidade portuária a muitos quilômetros de distância. A cidade parecia um enorme mar de fogo e o céu tinha a cor roxa quente e manchada de púrpura. Gigantescas colunas de fumaça erguiam-se compactas, levando consigo os fragmentos mais leves dos escombros, ainda em chamas. Havia fortes explosões, depois do que nuvens de fagulhas e chamas subiam muito alto. Ninguém podia aproximar-se daquele inferno; nada se podia fazer, senão deixar que o fogo consumisse tudo.
Na manhã seguinte ao holocausto, um dos fugitivos retornou à cidade para ver se restava alguma coisa. Demorou muitas horas e quando finalmente voltou, ao entardecer, as lágrimas desciam-lhe pelo rosto e tudo o que pôde dizer foi: Nossa Rotterdam não existe mais. Não sobrou nada.
De todas as cidades e aldeias vizinhas, e até mesmo de Delft, Haia, Leyden, Haarlem, Amsterdam e Wormerveer, os corpos de bombeiros acorreram para Rotterdam. Pelo dia 15, os incêndios já tinham sido controlados e no dia seguinte, os de maior vulto e mais ameaçadores também já tinham sido apagados. Muitos bombeiros trabalharam mais de 24 horas consecutivas, subindo e descendo escadas, galgando montes de escombros, buscando continuamente os cadáveres dos que haviam perecido. Demorou muito para que o fogo fosse completamente vencido nos setores mais afetados, e pequenos incêndios continuavam surgindo aqui e ali, em meio a destroços fumegantes. Em Haringvliet, as ruínas de armazéns que continham ervilhas ainda fumegavam dez semanas depois, mas os estoques de fumo foram os que mais resistiram ao fogo e só em meados de agosto é que as últimas chamas foram extintas.
Enquanto a destruição de Rotterdam ainda estava nos seus primeiros estágios, os militares de ambos os lados ainda se encontravam em meio à confusão provocada por motivos conflitantes e pelo colapso desastroso das comunicações. O Capitão Backer, que recebera o segundo ultimato do general Schmidt às 13:15 horas, nem bem chegara à extremidade norte do Willemsbrug quando as bombas começaram a cair. Os dois oficiais alemães que o acompanhavam fugiram. O capitão demorou 45 minutos para chegar ao QG do Coronel Scharroo em Blijdorp, pois tivera de atravessar diretamente pelo centro da cidade, onde o grande incêndio se alastrava, e o coronel estava desorientado quando Backer chegou. Foi difícil ler o segundo ultimato, mas uma coisa era certa - exigia a rendição e esta deveria ser efetuada antes das 16:20 horas. Foi penoso para o Coronel, tomar uma decisão. O Prefeito Oud e o Vereador Brautigam aconselhavam-no vivamente a que se rendesse; não bastava um bombardeio alemão? Não estava claro como o dia que Rotterdam sentia completamente aniquilada se não cessasse a luta? Será que mais vítimas inocentes teriam de sofrer? O Tenente-Coronel Wilson permaneceu calado. O mais difícil problema de Scharroo era a impossibilidade de telefonar para o QG e ele duvidava que pudesse obter instruções a tempo de pô-las em prática. Rotterdam não passava de um caos e a situação militar parecia desesperada. Backer, que não acreditara que os tanques alemães haviam chegado a Rotterdam, agora os vira com seus próprios olhos. Como poderiam o coronel e suas tropas esgotadas resistir ainda mais, com esperança de êxito? Scharroo sentia o peso da enorme responsabilidade, pois se capitulasse, escancararia as portas da Fortaleza Holanda. Naquele momento ele (e o general Winkelman) ignorava que Utrecht, Haia, Amsterdam e Haarlem sofreriam o mesmo destino. O conhecimento desse fato sem dúvida tê-lo-ia ajudado a decidir.
Em meio às deliberações, Wilson disse repentinamente: Coronel, estou aqui como representante do Comandante-Chefe. Em nome dele, portanto, quero perguntar-lhe: que decisão tomaria o senhor, independente da opinião de seus superiores?. Capitular, foi a resposta. Levando em conta, prosseguiu Wilson, que as comunicações com nossos superiores sofreram colapso, e que todos os meios de defesa estão agora no fim, declaro, como representante do Comandante-Chefe, que aprovo sua decisão e por ela assumo toda a responsabilidade. Eram então pouco mais de 14:30 horas. Com os dois oficiais que o haviam acompanhado, Wilson tomou o carro e foi para Haia. Eles não podiam seguir o caminho direto, porque, a pesar da natureza da missão de Wilson, por certo se teriam atrasado - ou mesmo sido alvejados, por engano - pelos alemães em Overschie. Em vez disso, foram para o norte... mas encontraram uma barricada antitanques em Bleiswijk, perto da rodovia Gouden-Haia, e não puderam prosseguir. Abandonaram o carro, transpuseram o obstáculo e continuaram a viagem, de caminhão.
O Coronel Scharroo decidira não arriscar um atraso, e embora seu prazo fosse estipulado até 16:20 horas, ele e Backer chegaram à ilha Noorder muito antes das 16 horas. Precisamente às 15 horas ele assinara uma ordem mandando seu subcomandante cessar fogo e aguardar novas instruções. No segundo ultimato alemão, Scharroo escrevera apenas uma palavra: aceito, assinando seu nome e acrescentando seu posto e função. Juntando-se aos generais Schmidt e Student, e ao comandante da divisão de tanques num carro na ilha, Scharroo, que no caminho vira a devastação de Rotterdam com seus próprios olhos, deu vazão à sua profunda indignação e acusou o general Schmidt de quebrar sua promessa. O general respondeu: Compreendo seu amargor, Comandante, e declarou que lamentava pelo bombardeio e que fizera o máximo possível para impedi-lo.
Restavam outros assuntos a tratar. Schmidt exigia que todos os soldados holandeses estivessem ao sul do rio antes do anoitecer, depois do que, às 19:10 horas, as forças alemães entrariam na cidade ainda em chamas. O coronel pediu permissão para retornar imediatamente para assegurar que a ordem chegaria às tropas holandesas a tempo, mas a cidade agora era um inferno de tal monta, que ele só chegou ao eu QG às 18:30 horas. Já então, os bombardeiros alemães estavam a caminho de Rotterdam pela segunda vez, por ordens de Goering. O chefe da Luftwaffe estava impaciente com a demora das conversações que visavam à capitulação. As tropas de Sponeck em Overschie seriam substituídas, Rotterdam seria bombardeada novamente e os tanques penetrariam até Overschie sem demora. Kesselring preparou uma mensagem radiofônica, deixando claro que a idéia não era sua. Assim, o segundo bombardeio seria desfechado entre 17:20 e 18:20 horas (hora da Holanda).
É bem provável que os Heinkels tivessem deixado a base às 15:30 horas. O General Schmidt não perdera tempo utilizando código - às 17:15 horas enviou a mensagem às claras Norte de Rotterdam tomado, o que não era verdade ainda; Não soltem bombas. Felizmente essa resposta surtiu o efeito esperado, e os Heinkels, já bem próximos de Rotterdam, receberam ordens de retornar à base.
O embaixador alemão, hospedado no Hotel des Indes, em Haia, foi informado da capitulação do exército holandês, o mesmo não acontecendo, no entanto, frisou-se, com a Zelândia e os Fuzileiros navais e tampouco, também, com o governo holandês.
A Marinha Real e a Frota Mercante Holandesa partiram para a Inglaterra e o Gabinete holandês transferiu-se diretamente para Londres. Assim, terminaram os cincos dias de luta desigual e começavam os cinco longos anos de ocupação alemã.
Da Legação Alemã, instalada no Hotel des Indes, ouviu-se a explosão de munição e foi exigida a suspensão imediata da destruição de material bélico. Em conseqüência, aos alemães foi entregue o Estabelecimento de Artilharia no Hembrug - a maior fábrica de armas e munições da Holanda - e em perfeito estado. Ela empregava mais de 7.000 operários e o setor industrial fora totalmente modernizado há pouco; embora fosse uma empresa de pequeno vulto comparada com as grandes fábricas de munição da Alemanha, ainda assim contribuiu inegavelmente para o tremendo poderio da Wehrmacht.
A maior parte da força aérea partiu, seguida dos instrutores de vôo, nos aviões de treinamento, para a Inglaterra. Recomendaram a Winkelman que se assegurasse de que o pessoal da força aérea naval, que fora para a Inglaterra, desistisse de qualquer idéia de luta. Se tentassem algo, seriam feitos prisioneiros, considerados franco-atiradores e fuzilados. Winkelman respondeu ao general alemão que só poderia responsabilizar-se pela parte do exército holandês presente na Holanda, sujeita às condições do armistício, mas que o país em si ainda se achava em estado de guerra com a Alemanha. Os soldados holandeses que se encontravam fora dos limites da Holanda, e especialmente os sediados nas Índias Orientais Holandesas, continuariam lutando, pois não estavam sob sua jurisdição.
Kuchler assinou o acordo pela Alemanha e Winkelman, pela Holanda. A luta, exceto na Zelândia, terminara. Eram mais ou menos 10 horas. Hitler sendo informado de tudo, mandou que a 9ª DP e o SS-Leibstandarte Adolf Hitler entrassem em Amsterdam e em Haia imediatamente. A imprensa alemã publicou uma proclamação do Fuhrer na qual agradecia aos soldados alemães por terem derrotado um exército forte e bem preparado que se defendia atrás de obstáculos inconquistáveis. O esforço heróico dos pára-quedistas e das tropas aeroterrestres, impávidos diante da Morte, foi por ele escolhido para menção especial. Os jornais alemães foram instruídos no sentido de enfatizar as críticas dirigidas ao Gabinete holandês e usar a caricatura do Príncipe Bernhard, mas não deviam mencionar a Rainha Gulhermina, como também a Princesa Juliana, que devia ser respeitada.
Por volta de 11 de maio já se iniciara o trabalho de rebocar para a Inglaterra os navios ainda em fase de construção destinados à marinha holandesa e a tarefa exigia certa coragem, pois a travessia lenta do Mar do Norte, sem escolta, em 1940 tornava-se perigosa. Dois submarinos novos, o 021 e 022, chegaram incólumes à Inglaterra, mas sem torpedos. Não dispondo de mapas, eles usaram um antigo mapa pesqueiro alemão adquirido a um velho navio de cabotagem em Flushing. Dois outros submarinos, o 023 e o 024, ainda estavam no cais de Rotterdam quando os alemães atacaram, mas mesmo assim tentaram escapar. O 024 nunca submergira. O risco maior concentrava-se nas minas magnéticas colocadas no Nieuwe Waterweg, e também se tinha de levar em conta os aviões alemães que haviam afundado o Van Galen a 10 de maio. Um navio, carregado de ouro do banco Neerlandês de Rotterdam, já fora vítima de mina magnética. Dois corajosos pilotos ofereceram-se para levar o 023 e o 024 para alto-mar, navegando por fora do canal e o mais perto possível da margem do rio. Quando a noite caiu eles partiram, sendo percebidos e alvejados por soldados holandeses que não entendiam o que se passava. Durante a noite eles avançaram bastante e quando amanheceu os dois submarinos submergiram para aguardar o anoitecer. Isto trouxe problemas para o 024. O submarino vazava muito e, por estar cheio de cortiça e outros entulhos do cais, as bombas entupiram e ele teve de emergir. Mas também ele chegou a salvo à Inglaterra, mesmo sem usar mapas e tendo como único aparelho de sinalização um maçarico elétrico. O adido naval em Londres tinha navios, mas não dispunha de tripulação; cabografou ao Almirante Furstner pedindo os especialistas necessários, que a marinha forneceu. A esquadra holandesa, em sua maior parte, achava-se em águas indianas e, para ela, a batalha prosseguiria como se ignorasse ter havido capitulação.
O restante dos aviões da Força Aérea da marinha voou para Cherburg e Brest e, a 17 de maio, 25 aviões e respectivas tripulações e outro pessoal, conseguiram escapar.
O exército considerou deserção a retirada de tão grande parte da marinha para a Inglaterra. Contudo, o Almirante Furstner era de opinião que, embora fosse de lamentar o fato de uma parte do Reino da Holanda ter sido perdida, ainda restavam as Índias Orientais Holandesas, o Suriname e as Antilhas a ser levados em conta e que toda a frota mercante estava na Inglaterra e precisando de escoltas. O almirante consultou seu subchefe sobre a melhor coisa a fazer e ambos chegaram a conclusão de que deveriam reunir o maior número possível de oficiais da marinha e juntarem-se aos vasos holandeses ora na Inglaterra. Furstner chamou Winkelman para informá-lo de sua decisão e recebeu uma reação nada amistosa. Entrementes, o general francês, Mittelhauser, mais três oficiais também franceses, chegavam à Haia a 14 de maio, compondo uma delegação enviada pelo General Gamelin. E quando explicaram a verdadeira situação ao general, ele reagiu e disse: Vocês não me deixar aqui neste remoinho! Gostaria que me ajudassem a deixar a Holanda o mais depressa possível. E dessa forma, o grupo do Almirante Furstner foi ampliado com a inclusão dos delegados franceses. Considerava-se que seria por demais óbvio zarpar no barco salva-vidas de Schevening, como se sugerira, e assim eles embarcaram num pesqueiro, o Johanna, e rumaram para Dunquerque. Ao largo da costa francesa, alguns elementos aproximaram-se deles de todas as direções e tudo parecia indicar que seriam alvejados, mas à vista de Mittelhauser na proa, usando seu quepe vermelho, a hostilidade se transformou em calorosa acolhida. Furstner e seu estado-maior mais tarde conseguiram chegar à Inglaterra sem quaisquer contratempos.
Por volta das 15:45 horas, a Flieger-Division do General Student dera início à travessia das pontes do Maas e uma hora depois, foi seguida do SS-Leibstandarte Adolfo Hitler com efetivo de divisão mecanizada. Pelo anoitecer a divisão das SS chegara junto às tropas combatentes de Sponek, em Overschie. Student e Choltitz estavam no QG de Scharoo discutindo os detalhes da rendição. O Prefeito Oud achava-se presente à reunião, realizada numa sala da frente no primeiro andar, e de súbito ouve-se o ruído de tiros. Student reconheceu pelo som que os disparos vinham de fuzis alemães e correu à janela para investigar. Por flagrante e terrível coincidência ele foi atingido por uma bala perdida e caiu. Centenas de soldados e civis holandeses estavam naquele momento diante do prédio, aguardando, e ao brado de Student foi ferido, soldados alemães encolerizados agarraram-nos e os puseram em fila com oficiais holandeses arrastados para fora do QG; posicionaram metralhadoras e provavelmente teriam concretizado uma execução em massa, se Choltitz não interviesse. Ele mandou que todas as pessoas prestes a serem fuzilados fossem escoltadas imediatamente para a igreja próxima, para aguardar o resultado da investigação. (Mais tarde verificou-se que armas alemães haviam feito buracos de bala na parede do QG). O Prefeito Oud providenciara logo a remoção de Student para o hospital de Berweg, onde foi operado com êxito. Mas os soldados alemães ficaram tão apreensivos que muitos deles nem se atreviam a beber água da torneira, temendo estar envenenada. Exigiu-se que Oud fizesse uma proclamação no sentido de que garantiria a segurança dos invasores com sua própria vida e que os alemães ali estavam como amigos. Ele concordou com os termos da primeira declaração, mas recusou-se a dar seu nome à segunda, e a proclamação (impressa em máquina manual, pois não havia energia elétrica) dizia apenas que as tropas alemães haviam recebido ordens de tratar a população holandesa com dignidade. Oud, de sua parte, faria o máximo para defender e promover todos os interesses legais da população vis-à-vis ao exército ocupante.
Quando Wilson afinal chegou ao QG suas primeiras palavras para o General van Voorst tot Voorst foram: General, acabo de vir do inferno. Relatou tudo o que vira da destruição em Rotterdam e informou que autorizara o Coronel Scharroo a render-se. A princípio, Winkelman pensou que a capitulação de Rotterdam, embora acompanhada de tamanha calamidade, fosse apenas uma catástrofe isolada. Novas linhas de defesa haviam sido construídas e ele esperava que se pudesse manter a Fortaleza Holanda. Contudo, durante a tarde, Utrecht recebeu um ultimato; tal qual o documento de Rotterdam, ele dizia: renda-se ou será totalmente destruída. De acordo com a ordem de Winkelman, de lutar até o derradeiro homem, o ultimato foi rejeitado, mas a Luftwaffe lançou 4.000 panfletos sobre a cidade, vaticinando-lhe o mesmo destino de Varsóvia, caso não se rendesse. O comandante de Utrecht informou o grande QG e finalmente todos viram com clareza o que aguardava a Holanda se continuasse a resistir. A Fortaleza Holanda ainda se achava intacta e provavelmente poderia ser defendida por tempo considerável, mas que vantagem haveria, se todas as cidades fossem destruídas nesse meio tempo e a Holanda devastada? Mas antes que a rendição do país fosse transmitida oficialmente ao vencedor, havia muito o que fazer. A marinha foi encarregada de inutilizar todos os portos e respectivas instalações. Todos os arquivos militares tinham de ser queimados nos incineradores do centro de lixo de Haia, e van Oorschot, Chefe do Serviço Secreto Holandês, era portador de muito documentos, sobretudo de relações de nomes que não podiam cair em mãos alemães; os arquivos secretos do Ministério da Defesa foram destruídos; armas foram quebradas, lançadas ao mar ou desprovidas de peças essenciais. Em seu zelo, os encarregados da destruição de documentos também destruiram as Instruções para Tempo de Ocupação, mas esqueceram-se de queimar os arquivos do Serviço Topográfico, e que vieram a ser posteriormente de grande valia para os alemães. Finalmente, era preciso preparar o texto da proclamação radiofônica que comunicaria a derrota à população holandesa.
Ocupação Os prefeitos de Amsterdam, de Haia e de outras grandes cidades, onde os alemães iriam entrar triunfalmente, pediram aos cidadãos para manter a calma e a ordem, que era o apanágio da velha civilização da Holanda e, de modo geral, a população soube, de fato, mostrar bastante comedimento e grande dignidade nessa hora difícil para sua pátria.
O Fuhrer honrou as tropas alemães que ocuparam a Holanda com as seguintes palavras: Em cinco dias haveis atacado e destruido as defesas aéreas e finalmente forçado a rendição de um exército forte e bem preparado, que se defendeu valorosamente atrás de obstáculos aparentemente imbatíveis e recebendo reforços militares. Com isto haveis realizado algo único. O futuro mostrará sua importância militar. Só pela vossa exemplar coordenação, pela liderança decidida e pela coragem dos soldados, sobretudo pelo valoroso desempenho das tropas aeroterrestres, com seu desprezo pela morte, é que esse feliz empreendimento se tornou possível. Em nome do povo alemão, agradeço-vos e expresso minha admiração.
Esta é uma pequena amostra da retórica de Hitler, com a qual os holandeses se acostumaram no decurso dos cinco anos a seguir.
Entrementes, publicava-se um aviso em todos os jornais; o Prefeito de Rotterdam pedia a todos que não tinham motivos imperiosos para ficar na cidade, que se mantivessem longe dela, por enquanto. Os que desejassem informações sobre parentes deveriam ir direto ao Departamento da Policia de Menores, instalado na delegacia de policia de Oostervanstraat em Rotterdam, telefone 35888.
Todos trabalhava desesperadamente para construir de novo tudo aquilo que desmoronara naqueles fatídicos cinco dias de batalha, havendo também para resolver o problema de retomada da vida cotidiana. Não era fácil esquecer que, durante aquela catástrofe, cerca de 2.500 soldados e aproximadamente a mesma quantidade de civis haviam morrido.
As inúmeras proibições começaram a se acumular; era proibido ter pombos-correio, e os que havia tinham de ser mortos, dentro de uma semana; o escotismo fora proibido porque o movimento se originara na Inglaterra; os cardápios dos restaurantes não podiam mais ser escritos em francês e sim em holandês ou alemão, exceto nos casos referentes a restaurantes indonésios, chineses e italianos. As cidades, em sua maioria, tiveram seus prefeitos substituídos por membros do NSB, sem levar em conta eficiência e habilitações. Inevitavelmente, e o mais sério de tudo, o comando alemão emitiu ordens para que nenhum navio, de qualquer nacionalidade, saísse dos portos; toda tentativa nesse sentido seria impedida pelos meios que se fizessem necessários. Diante disso, os holandeses estavam prisioneiros no próprio país.
A ocupação da Holanda durou pouco menos de 5 anos. As dificuldades do povo holandês aumentavam de ano para ano; a princípio, pelo menos superficialmente, a situação não mudou muito da dos dias que precederam a guerra. Jornais eram publicados diariamente e, na verdade, uma olhada no jornal mais popular de Amsterdam, De Telegraaf, dificilmente revelará qualquer diferença entre a semana que antecedeu a guerra e o dia após a capitulação, exceto quando apresenta a alta cotação da taxa de câmbio do Reichmark em relação ao florim holandês.
As mudanças na vida holandesa ocorreram mais lenta e subtilmente. Os jornais foram fechados um a um. O racionamento posto em vigor durante a mobilização em 1939, continuou e tornou-se cada vez mais rigoroso, de preferência em relação aos produtos que a Holanda recebia normalmente das colônias, como café, arroz, chocolate, açúcar e chá. Em quase todas as cidades holandesas viam-se uniformes alemães. Tornou-se rotina encontrar nazistas armados nas estações ferroviárias, mantendo guarda contra possível sabotagem. Os trens de passageiros rarearam, sobretudo após a invasão da Rússia em 1941, porque o material rodante era indispensável no transporte de tropas e equipamento para a Frente Oriental. As cidades holandesas desacostumadas de ver cidadãos não-europeus logo tiveram de aceitar a presença de soldados asiáticos que se haviam apresentado como voluntários para unidades das Waffen-SS; entre eles haviam indianos, sikhs, tipos mongolóides de nacionalidade indefinida. Sobretudo, a atmosfera já não era a mesma. Algumas coisas simplesmente não eram mencionadas. Logo de início os judeus receberam as estrelas amarelas de Davi e eram obrigados a usá-las na roupa, bem à vista de todos. Muitos holandeses demonstravam simpatia íntima pelos seus conterrâneos judeus e até havia quem os ajudasse abertamente. A perseguição franca limitava-se a cartazes logo afixados em cafés, indicando a proibição aos judeus de frequentá-los; esses cartazes apareceram em bancos de parques e em vários outros lugares públicos, mas o transporte em massa de judeus para os campos de concentração, verdadeiramente só começou em 1943.
Os alemães haviam sido muito bem orientados no sentido de como tratar esse país que conquistaram. Os nazistas consideravam os holandeses quase tão bons quanto os alemães - não fosse pelo cruel destino e pelas vicissitudes da história, eles poderiam ter tido a sorte de terem sido sempre alemães - e como, por língua e raça, conforme definidas pelos nazistas, eles eram indubitavelmente germânicos, os holandeses deveriam ser bem tratados. A princípio, e de modo geral, eles de fato foram. Os soldados alemães tudo fizeram para ser gentis, mas essa gentileza era recebida com desconfiança e descortesia. Os holandeses não aceitavam a maneira como eram considerados pelo alto-comando da Wehrmacht. Eles vinham de uma nação orgulhosa, que lutara pela sua liberdade contra muitos invasores estrangeiros, e os alemães, apesar de como encaravam os holandeses, eram classificados na mesma categoria, exceto pelos membros do NSB. Muitos soldados alemães do exército de ocupação não podiam compreender os sentimentos dos holandeses e os tachavam de ingratos; portanto, em poucos meses, a brecha que havia entre conquistador e vencido e que os nazistas tinham tido a esperança de fechar, na verdade aumentou ainda mais.
Antes da guerra, muitos holandeses não-membros do NSB tinham certa simpatia por Hitler. Afinal, ele deu trabalho ao povo quando ainda havia total desemprego e inflação na Holanda. Mas uma vez que o país foi invadido, é claro, que aquela simpatia deixasse de existir. Houve muitos holandeses que, como oportunistas, apoiaram a Alemanha; na realidade, 50.000 deles ingressaram nas Waffen-SS e vários outros trabalhavam como espiões para a Gestapo. Mas a maior parte dos holandeses se ressentia da destruição que assolou uma das suas mais importantes cidades e da ocupação que trouxe tanta amargura. Alguns, vivendo na esperança de vitória aliada, continuavam como antes, só que num desespero atroz e intimamente envergonhados. Alguns chegaram a trabalhas, às ocultas, contra a Alemanha. Mas, contrariamente à crença popular hoje em dia, foram poucos os que se ergueram contra o invasor antes de estourar a greve portuária em Amsterdam, em fins de 1942, quase dois anos após a conquista. Como era de esperar, os alemães começaram a ocupar, uma a uma, as funções importantes dentro do que restava do estado holandês. Desde os pontos-chaves na policia até o cargo de agente de estação ferroviária, todos eram ocupados por holandeses de confiança e, mais freqüentemente, pelos próprios alemães. À medida que os holandeses procuravam refazer-se, lenta e inexoravelmente, do choque da derrota, uma resistência, um movimento clandestino, começou a tomar forma.
Nas paredes das cidades apareceram proclamações contando que alguém fora fuzilado no dia anterior, ou que algumas pessoas haviam sido levadas como reféns porque um soldado alemão fora alvejado ou morto. Essas tentativas feitas com o intuito de submeter os holandeses pelo terror foram contraproducentes. A resistência aumentava a cada patriota fuzilado. Se poucos ingressavam na resistência ativa - afinal de contas, a roupa e o alimento tornando-se cada vez mais escassos, a maioria das pessoas preocupava-se sobretudo com a própria família - o ressentimento aumentava; de modo que, já em 1943, nenhum soldado alemão se atrevia a andar sozinho à noite, até numa aldeia, e se em companhia de um compatriota, levava sempre uma arma segura na mão.
Uma volta curiosa a velhos hábitos holandeses de séculos anteriores começou a ocorrer e que serviu para estimular a renovação do sentimento nacionalista. Por exemplo, tornou-se moda usar um suéter tricotado a mão feito de lã de carneiro fiada de maneira irregular, crua e sem tintura.
À medida que o alimento escasseava, a amargura contra os substitutos ersatz alemães e contra o exército de ocupação começou a se destacar nas classes médias, que estavam acostumadas à fartura de toda sorte de alimentos. Quando o pão ficou mais difícil de obter e piorou em qualidade, muitos se voltaram para o mercado negro de alimentos e outros começaram a comprar trigo sub-repticiamente, reduzindo-o a farinha grossa, em seus moedores de café. O pão feito desse material e assado em seus fornos mostrou-se melhor que o produzido pelo padeiro, privado de boa qualidade de trigo e de farinha.
A Rádio Oranje, o serviço de transmissão radiofônica holandês que operava da Inglaterra, era ouvida ansiosamente por muitos cidadãos, apesar das proibições alemães nesse sentido. Se alguém fosse apanhado ouvindo a Rádio Oranje ou a BBC, provavelmente era preso e seu aparelho, confiscado. Não obstante, havia uma fome tão desesperada de notícias do exterior, e tão grande era a desconfiança da rádio alemã e da imprensa controlada pelos nazistas, que valia a pena correr qualquer risco, só para ouvir notícias de uma vitória aliada. Quando essas vitórias começaram a se tornar comuns, a resistência foi-se declarando mais abertamente e o controle alemão impôs-se com mais rigor, chegando a intrometer-se na vida particular dos cidadãos, a cada revés sofrido na África ou na Frente Oriental. Os judeus começaram a ser levados. Alguns conseguiram esconder-se, mas muitos foram encontrados na companhia de amigos holandeses. Quando chegou o Dia-D, quase não havia mais comestíveis e carvão, e os holandeses foram obrigados a passar fome e a sofrer com o inverno, mesmo tendo parte de seu país já libertada em fins de 1944. A Holanda Ocidental, ao norte dos rios, incluindo as grandes cidades de Haia, Amsterdam, Utrecht e o que estava da Rotterdam, tornou-se um enclave alemão que só foi libertado no fim da guerra.
Durante o inverno longo e excepcionalmente rigoroso de 1944-45, a fome foi rotina; milhares de criaturas morreram de frio e de fome e a classe média foi obrigada a vender seus tapetes orientais, como também seus móveis antigos, para obter lenha e porções de comida ou batatas. Assoalhos e móveis eram queimados para se conseguir alguns minutos de aquecimento. Minha família comeu bulbos de tulipas, sacarina, e repolho-roxo diariamente num período de vários meses. Nós fomos, no entanto, dos menos infelizes, pois meu pai se prevenira, comprando um caminhão carregado de repolhos no outono de 1944, e embora já estivéssemos terrivelmente enjoados de tanto comer repolho quando se deu a libertação ainda assim tínhamos de nos sentir bastante agradecidos - muitos outros estavam carentes até mesmo nas necessidades mínimas de subsistência. A sorte da Holanda foi que aquele inverno foi o mais rigoroso e o mais longo do século. As árvores só começaram a brotar em maio - justamente quando a guerra chegou ao fim. A ocupação alemã foi uma experiência mais traumática do que esperávamos em 1940. Ela se transformou em pesadelo e numa luta por sobrevivência que muitos dos meus compatriotas não conseguiram vencer. A Holanda pagou muito caro pela neutralidade, sem preparo e sem armas, que a imprevidência, durante os anos 30, defendeu com a mesma intensidade com que se defende hoje a neutralidade e o desarmamento na Europa. Foi um preço que os que passaram por isso não gostariam de pagar novamente. Jamais um holandês se esquecerá da comida lançada de pára-quedas pelos Aliados pouco antes da capitulação alemã. Latas de biscoitos, chocolates e bacon caíram nas mãos dos milhões de famintos, cujos organismos, já desacostumados com essa fartura, reagiram violentamente quanto as rações devoradas.
Rotterdam renasceu das cinzas de 1940. Hoje o Europoort é o maior complexo portuário do mundo, funcionando com um volume espantoso de carga oceânica - cerca de 250 milhões de toneladas anuais. O horizonte é dominado pelo Euromast, uma torre de observação de 188 metros de altura e de cujo restaurante se pode avistar quilômetros de extensão além dessa imensa cidade. A Lijinbaan, proibida ao tráfego, usada somente por pedestres, é também um centro de compras e que foi copiado por toda a Europa. Quando a cidade foi reconstruída, evitaram-se as ruas tortuosas e estreitas da Holanda, e largas rodovias, com capacidade para suportar tráfego pesado, substituíram os escombros. Árvores e arbustos, parques e playgrounds são abundantes e um moderno sistema de metrô foi construído (o que é notável, já que a cidade propriamente dita está localizada abaixo do nível do mar).
Do coração de Rotterdam quase nada restou; pelo menos o que o olho humano pode ver. Mas o espírito da cidade não foi destruído no holocausto de 1940, e foi esse espírito que reconstruiu Rotterdam e continua vivo no coração dos seus jovens habitantes que jamais experimentaram o pavor dos sofrimentos de maio de 1940. (fonte: A segunda guerra mundial - Adolfo Luna) |